quinta-feira, 10 de junho de 2010

Pés e Mãos

Uma antiga reportagem que li uma vez contava que certas celebridades cuidam muito do rosto, mas esquecem dos seus pés, alguns horríveis e mal cuidados, verdadeiro red carpet de joanetes, calos e unhas encravadas.

Poucas coisas dizem mais sobre uma mulher do que seus pés e mãos, reveladoras extremidades. Antes de olhar para trás quando ela passa, conferindo as formas, antes de permitir que o olhar caia como a matéria de uma prova final dentro do seu decote, antes mesmo de avaliar o trópico da sua cintura, prefiro prestar atenção nos seus pés e mãos.

Confesso o crime sem pudor algum. Acho um verdadeiro espetáculo mãos bem feitas, de palmas rosáceas e aparência macia; pés cuidados com dedos em escadinha. E como são reveladores estes detalhes! E também as suas mais variadas combinações.

É muito bonito mãos com cores mais fortes, vermelho, café e até azul marinho. Já os pés ficam lindos de branco, rosa ou até sem cor alguma. Mas se até os pés estão em escarlate, o homem tem todo o direito de imaginar mil coisas, só as melhores, porque isso equivale quase ao aviso de que ela vai se depilar. Não tem como não sonhar.

Até mesmo desleixos caprichados são interessantes, como um pedacinho descascado aqui e ali, simulando que ela nem liga para algo com que tanto se importa. Essa aliás é uma das mágicas típicas da mulher, ser despojada, meticulosa e encantadora, tudo ao mesmo tempo, fazendo com que o homem acredite de verdade que nada daquilo foi sua intenção.

Um sorriso, uma mordidinha no lábio inferior, as mãos passando pelos cabelos, cada gesto vale uma foto, uma captura para eternizar o momento que ela finge que nem existiu.

Assim como encena não ter escolhido um esmalte de cor mais chamativa e um perfume provocante para merecer um elogio em forma de amasso, de beijo molhado, de urgência no elevador. Sou naturalmente observador, gosto de perceber como o caimento de uma pulseira se ajusta à forma do pulso, um anel valoriza os dedos longilíneos, uma tornozeleira evidencia a canela grossa, impositiva.

Uma bela mulher passando é mais eficiente do que 10 oficinas de roteiro, e nenhuma boa história existe sem seus detalhes, sem enredo, sem despertar o interesse do leitor.

Da mesma forma não acredito na beleza do todo, sem a beleza do pouco. Uma pessoa bonita assim o é por causa do olhar, do formato das sobrancelhas, dos pelinhos nos braços, de uma covinha no queixo, de pés que transportem graciosamente e mãos que apresentem o todo ao cumprimentar.

Descobrir a beleza de verdade não é fast-food, é conversa demorada à mesa. Não é refrigerante, é bebida degustada. Não são "os finalmentes" e sim longas, demoradas e quase doloridas preliminares. Quem tem pressa perde os detalhes e quem negligencia os detalhes fica sem saber qual o verdadeiro gosto do todo.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

É de manhã que o insone anoitece

Quer conseguir dormir em 5 minutos? Basta alguém te avisar que você tem um compromisso dali a 10. É mais ou menos como quando viajamos de carro em grupo e o motorista avisa: "agora vou direto até o destino final". Não demora muito e alguém vai sentir sede. E a água que esta pessoa bebeu vai se transformar na vontade de fazer xixi de outro, levando literalmente por água abaixo a intenção do motorista.

O sono é um sacana genioso que cisma em aparecer na hora do trabalho e em brincar de esconde-esconde na hora de dormir. É de manhã que o insone anoitece.

Sei do que falo porque desde cedo já mostrava mais inclinação a ser noturno. A "Sessão de Gala" me parecia bem mais interessante do que a "Sessão da Tarde". À noite os sons são mais seletivos, e os barulhos impessoais do dia são substituídos por rangidos, cantos, guinchos, risos ao longe e até choros abafados, mas todos personalíssimos.

Era delicioso ficar com a janela da sala que dava para a rua entreaberta ouvindo os carros passando lá fora, as conversas ao longe, o vento soprando seu uivo forte, e melhor ainda era a sensação de vulnerável proteção que sentia estando dentro de casa, mas tão perto do que acontecia fora dela.

Mais tarde a noite toma gostos e perfumes para si, ela é o cheiro da gata, o beijo na boca, a vodka que vai incendiando as veias, a música que pulsa junto com o coração. Ela também será a hora da individualidade, com colegas de trabalho longe em suas casas e o marido/esposa dormindo, os livros, a TV ou qualquer outra coisa sendo a companhia que não julga, não pede, não exige.

Até que seja a hora dos choros, das fraldas e da sonolenta contemplação, quando inquietas pestinhas viram anjos de rosto tranquilo, de sonhos sem ambição, de futuros não escritos.

Se passamos um terço de nossa vida dormindo, metade dela vivemos anoitecidos e não há mal algum em dividir esse terço desacordado igualmente entre o dia e a noite, para que possamos viver os dois melhor.

Porque o sono adora contrariar e se perdemos tempo procurando por ele, certamente vai ser bem mais difícil de encontrá-lo. E enquanto não inventarem comprimidos para que passe meu impulso de sair correndo e fugir da rotina, para fazer aparecer ou passar certas vontades, para 40 minutos de bicicleta ergométrica sem sair do sofá ou para uma dieta à base de peito de frango e alface, eu continuo resistindo a usar comprimidos para dormir.

Sei lá, vai que o sono além de genioso vire um viciado e me transforme em seu traficante de ansiolíticos? Prefiro passar a noite dentro da lei, fazendo, no máximo (e com sorte), apenas algumas libertinagens.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Caligrafia

Quando eu era criança tentava escrever com a letra redondinha e caprichada dos meus colegas de classe. Começava forçando o traço, desamassando minhas letras, tentando ser outro através da caligrafia.

Mas lá pela segunda frase as letras começavam a diminuir de tamanho consideravelmente e os traços amplos e elegantes que tentava copiar iam se tornando um amontoado de letrinhas pequenas, tímidas, como que envergonhadas por serem mera cópia do estilo dos outros, meros garranchos da personalidade.

Quando meus dedos doíam mais do que a vontade de imitar a caligrafia alheia, meus rabiscos voltavam lentamente para dominar as pautas, impondo-se sobre minha vontade de ser igual.

Meus amigos todos faziam letras bonitas, que pareciam saídas direto da máquina de escrever. Mas eu não conseguia escrever como eles, assim como muitos deles também não conseguiam escrever como eu.

Talvez o caos da minha caligrafia fosse mais propício para levar minha mente a imaginar histórias e inventar maneiras de contá-las, talvez aquelas letras não estivessem tortas, mas fugindo, por isso eram tão retorcidas.


Fugiam das partes chatas da aula de geografia para passear pelo Mapa Mundi. Não estavam interessadas na monocultura nordestina e sim no balanço das suas jangadas. Pouco ligavam se a professora de história dizia em qual data o bloqueio continental fora estabelecido, queriam mesmo é saber qual a cor do cavalo branco de Napoleão.

E enquanto verbos, advérbios e pronomes faziam suas ordens unidas gramáticas, elas queriam contar o que o perfume dos cabelos dourados da menina que sentava à minha frente causava, queriam contar que ouro também pode ter cheiro.

Minhas letras possuíam vontade própria, quase como as poesias, que ao contrário do que muitos pensam, não são escritas, mas vão se escrevendo na gente. Inventaram até uma desculpa pro seu suposto mau jeito, que nenhum caderno de caligrafia conseguiu domar.

Do jeito que fazem agora, viajando livres nestas suposições.

Máquina de escrever

Se logo de manhã cedo é a hora do sono, o meio dia a hora da fome, a noite é dos amantes e a madrugada dos insones, o meio da tarde é a hora do tédio. A menos que você esteja de férias e todas as horas sejam de anti-rotina. A pessoa simplesmente de férias é alguém com tempo demais para fazer coisas de menos. Mas aquele que viaja nas férias vai pairar sobre a rotina dos outros achando aquilo tudo divertidíssimo.

Quado viramos adultos, não sentimos saudade do tempo de colégio por causa das aulas de matemática, das explicações do professor de geometria ou de conjugar verbos. Nossa saudade é da hora do recreio e de dois períodos de férias por ano, que batem facilmente a hora do almoço com seus restaurantes a quilo e 15 dias de férias tiradas e outros 15 dias vendidos.

Aliás, deveriam criar uma lei contra vender férias ou então legalizar de uma vez a venda de rins, pulmões e até da alma pro diabo.

Mas voltando ao assunto principal: o tédio vespertino de qualquer escritório que não seja o da National Geographic. Muita gente assiste filmes no computador, outros passam o tempo lendo jornal, enrolam e fingem que estão ocupados e, pasme, existe até quem realmente trabalhe.

Alguns, como eu, começam a procurar coisas para comprar. Seja uma promoção de uma loja virtual qualquer, uma livraria queimando estoque ou os peculiares sites de leilão, o meio da tarde é um molestador de cartões de crédito.



E numa dessas andanças achei uma máquina de escrever Remington, daquelas que viram uma mala, em perfeito estado. A tentação estava incontrolável e na hora pensei: é isso que falta para que eu me torne um bom escritor! Estranha mania de atribuir a objetos uma capacidade de nos conferir qualidades exclusivamente humanas.

Mas quando me preparava para comprar a belezura, um elemento estranho à maioria dos ato de consumo apareceu de surpresa: o raciocínio. Como é que eu iria transferir o que fizesse ali para um arquivo digital? Afinal de contas, até para imprimir algo hoje em dia precisamos do arquivo eletrônico.

Nesses tempos modernos, a porta USB é tão imprescindível para a arte quanto o papel e a caneta, o violão, o piano e até a inspiração.

Eu ficaria cheio de páginas e mais páginas repletas das minhas divagações, loucuras, conjecturas e sarcasmos calculados e não poderia despejá-las praticamente em ninguém. Ficariam ali, presas naquelas folhas, formando uma enchente de idéias no meu quarto e terminariam por me afogar.

Não pude deixar de admirar ainda mais os velhos escritores, que tinham que fazer várias cópias do seu trabalho e entregar em mãos, na arena romana do olho no olho, ou então depender dos correios para que chegassem aos editores e depois depender dos editores para chegar às livrarias e, finalmente, destas para chegar aos leitores. Eram verdadeiros heróis, ainda que só quisessem ser lidos.

Cheio de admiração por eles, desisti de comprar a Remington e continuar escravo da tecnologia. Não quero ser herói, quero apenas que me leiam.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Pequenos Mundos

Ele fica ali abandonado na prateleira, mais um dentre tantos livros. Testemunhas silenciosas da nossa preguiça de saber, até que um dia resolvemos pegá-lo e começamos a desvendar aquele enredo que estava alheio à nós, acontecendo sem parar nas suas páginas fechadas.

Um livro só acontece quando é lido? Não. Ele está ali, como a cidade em que vivemos quando crianças, que em nossa ilusão egoísta ficou parada no tempo, nos esperando voltar, mas que para nossa surpresa continuou vivendo sem que tomássemos ciência do que se passava.

Os livros também são assim. Romeu continua amando Julieta, a Segunda Guerra continua sendo travada em suas páginas dia a dia, os microcontos de Carver formam cidades e bairros vivos e enfileirados em nossa estante, os carros passam, casais fazem sexo enquanto o vizinho espiona com uma luneta, as crianças correm nos pátios dos colégios, as tempestades caem, a história acontece. Tudo ali, independente da nossa vontade, num canto da nossa sala, vivo e pulsante.

E quando finalmente abrimos suas páginas, o que fazemos é tão somente pular naquele universo em movimento, tomar parte como observador do que já acontecia. Sentimos os cheiros, nossa boca se enche d'água com os gostos, nos tornamos rivais do protagonista em sua paixão pela bela morena de olhos verdes tão ricamente detalhada, viramos amigos do velho da casa em frente, que narra a história deliciosamente.

As páginas correm depressa, nem vemos o tempo passar. Chega a lembrar a vida nesse ponto. Mas ali somos apenas turistas, observadores convidados pelo autor a viver aquele pedaço de tempo que estava na sua cabeça, secção de um todo que ele resolveu compartilhar.

Quando o fim se aproxima, quando nossa mão direita já tem poucas páginas para segurar, quase sentimos raiva dele por estar sutilmente nos avisando que nosso visto de permanência está expirando. Tentamos segurar as páginas como fazemos com os dias, na eterna luta contra o tempo, e tal qual nesta perdemos no fim e vemos que tudo passa.

Sobra a saudade dos amigos que fizemos em cada linha, da intimidade que conquistamos ali pelo segundo ou terceiro capítulo e a certeza de que tudo vai parar quando finalmente lermos as três letras na última página.

A sensação de abrir outro livro logo em seguida, de entrar em outro mundo, outro continente, cidade ou país é quase de traição. Como trocar de amigos assim tão levianamente? Mas aqueles de antes já não nos esperam, assim como a cidade de nossa infância continuou a crescer e mudar depois de nossa partida. A história continua ali, se repetindo. A vida continua ali, acontecendo.

Sobra para nós a mesma coisa que as experiências da vida nos deixam: conhecimento. A mesma sabedoria que tanto na prateleira quanto na vida, temos estranha preguiça de perseguir.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Traduções tenebrosas

Outro dia estava vendo TV e a personagem disse algo como "I´m tired of waiting for a ring and decided to give a ring myself", algo como "Cansei de esperar que me ligassem e resolvi eu mesma ligar". O tradutor, obviamente querendo enfeitar o pavão (decorate the peacock), resolveu partir do princípio que "ring" seria um "anel" (de noivado) e colocou assim na legenda "Cansei de esperar pelo príncipe encantado".

Esse tipo de tradução tenebrosa é corriqueira. Certa vez ouvia uma rádio e o locutor anunciou, todo animado, que iria tocar um "grande sucesso de Morrissey, 'Suedehead', cabeça suada".

Na verdade o termo suedehead, traduzido literalmente como "cabeça de veludo", serve para identificar quem corta o cabelo bem baixo, dando a aparência de um veludo. Mas nosso "tradutor" achou que era suor.

É difícil transportar piadas, termos e expressões de um idioma para outro. Eles às vezes são frutos de situações do cotidiano próprias de um lugar e viram algo sem pé nem cabeça se traduzidos. Existe um livro muito engraçado chamado "The Cow Went To The Swamp" (A Vaca Foi Pro Brejo), do Millôr Fernandes, que faz uma brincadeira com essas situações, como dizer que "rodar a baiana" se transformaria numa incompreensível e engraçadíssima tradução como "To whirl the old woman from Bahia".

Mas de certo modo o contrário também acontece. Existem letras de músicas que soam maravilhosas em inglês, mas se traduzidas para o português se tornam verdadeiros monumentos ao horror. Eu acho que rock'n'roll por exemplo foi inventado para ser cantado em inglês, assim como rap. Até gosto de músicas nesses estilos em outros idiomas, algumas até não saem do meu iPod, mas quando compostas e cantadas em inglês parece que "combinam" mais.

Tomemos como exemplo outro grande sucesso de Morrissey, desta vez com os Smiths, "The Boy With The Thorn In His Side", que traduzido literalmente vira um ridículo "O Garoto Com o Espinho em seu Flanco", o que com algum trabalho de interpretação vira "O Garoto Eternamente Atormentado". O sentido fica melhor, agora tente cantar isso...

Imagine o Sting cantando no The Police (A Polícia) um refrão repetitivo como "Mensagem na Garrafa...Mensagem na Garrafa...". Eu acho um desastre.

Conheço algumas músicas de sucesso em outros idiomas que, se traduzidas para o português, só serviriam para serem cantadas por grupos de pagode-cornudo ou por esses artistas que vendem CDs em barraquinhas de rodoviária.

Mas a sonoridade e muitas vezes a benção de não entender o que é dito ali fazem com que nos concentremos na melodia e aí a música cai bem. Só fico na dúvida se nos seus países de origem todo mundo é meio brega, se as referências culturais são tão diferentes a ponto daquilo tudo ser aceitável ou se eles são o equivalente aos "cantores populares" daqui.

Nem vou falar de nomes de filmes, que os distribuidores nacionais parecem ter compromisso em tornar algo totalmente diferente do contexto original. Isso chega a ser assunto para um outro post.

Ainda assim Sebastian é melhor do que Sebastião. Assim como pedir uma t-bone steak é mais simpático do que bisteca (que parece biscate). Outras coisas nem ousamos traduzir como milk-shake, frozen yogurt e mouse.

Nossos primos portugueses não tem tanto pudor e chamam o periférico de "rato" mesmo. Mas eles não são parâmetro já que traduzem até nomes próprios, como o da rainha Elizabeth II, que em Portugal é chamada de "rainha Isabel" e seu filho e herdeiro de "príncipe Carlos".

Creio que o melhor é um meio termo entre o bom gosto e a identidade cultural do país. Não precisamos ser tão radicais a ponto de chamar download de "descarga", mas também não precisamos ser uma Barra da Tijuca, onde as pessoas compram remédio na drugstore, carnes na butchery, tomam café numa bakery e chamam até rosquinha de polvilho de donut.

Porque se for desse jeito eu acabo mudando o nome do blog para Against the Flow.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A flotilha da paz

No último dia 31 de Maio uma ONG (sempre elas) chamada Free Gaza organizou uma flotilha com 6 embarcações com intenção de furar o cerco à Faixa de Gaza e levar ajuda humanitária. Israel abordou essas embarcações para não permitir que chegassem ao seu destino e, durante a luta que ocorreu, o saldo foi de 10 mortos, 25 feridos e 600 pessoas detidas.

O mundo em peso condenou a ação israelense, ocorreram protestos em várias cidades e rapidamente países anti-americanos e anti-israelenses como Irã e Venezuela et caterva apareceram para dizer o já conhecido "eu avisei", como se aquilo tudo fosse a confirmação de que eles são o "bem" na eterna luta do bem contra o mal.

Confesso que não concordo com o embargo à Gaza. Não que eu considere digno de interlocução um governo liderado pelos terroristas do Hamas, mas simplesmente porque acredito que a pobreza, a ignorância e principalmente, a desesperança, são insumos para o extremismo e o terrorismo. Aquela gente passando fome, sem direitos básicos, sem possibilidade de planejar qualquer coisa no futuro só tem um sentimento: o ódio. E o ódio reprimido leva qualquer um a fazer coisas que não faria normalmente.

Mas entendo também o chanceler de Israel, Avigdor Lieberman, homem prolixo e fértil em dizer asneiras que incendeiam ainda mais a fogueira do conflito árabe-israelense, mas que está coberto de razão quando diz que Israel já cedeu mais territórios aos palestinos do que os que ainda sobram para serem devolvidos, e ainda assim o conflito só piorou.

A Faixa de Gaza foi devolvida aos palestinos integralmente, até os famigerados assentamentos foram retirados, mas ainda assim ela serve como plataforma de lançamento de foguetes palestinos contra as cidades israelenses próximas.

Durante as conferências em Camp David, foi oferecida aos palestinos a devolução total de Gaza e da Cisjordânia, além de Jerusalém Oriental como capital do seu estado independente. Eles recusaram, porque queriam também a volta de exilados que estavam em outros países.

A cada concessão, nova exigência. Porque isso? Simples, porque toda essa luta palestina gera fundos de ONGs e governos estrangeiros, que enriquecem os líderes daquele povo, enquanto seus liderados são mantidos na miséria.

Mas não existe ninguém totalmente "bonzinho" ali. Israel faz questão de alimentar seus críticos e detratores com medidas impopulares, inumanas e truculentas. Um muro que cerca a Cisjordânia e ajudou a impedir ataques suicidas espertamente tungou 10% do território palestino. A cada foguete caseiro lançado contra o país, as Forças de Defesa de Israel (IDF, em inglês) lançam ataques poderosíssimos, que deixam um rastro de mortes.

Postos de controle que garantem a segurança interna também infernizam o ir-e-vir dos palestinos. Sem contar o fato de ser a única democracia real do Oriente Médio e ainda assim conviver com a incômoda realidade dos campos de refugiados.

Tudo isso dificulta a tarefa de quem deseja defender Israel no campo das idéias, porque à primeira vista o país faz muito para justificar a cota de ódio da qual é objeto.

Mas aí eu lembro que em países islâmicos sem ocupação alguma, o povo é oprimido por seus próprios governantes do mesmo jeito. Irmãos atacam irmãos, pais tratam suas filhas como animais, sociedades criam monstros como os Talibãs, enviam terroristas para atacar pessoas do outro lado do mundo com a simples justificativa de que são "infiéis". E tudo isso sem ocupação alguma que justifique tanto ódio, tanta violência.

Convenhamos: não existem terroristas israelenses explodindo bombas em metrôs. Eles usam violência exacerbada em várias ocasiões, mas o fazem na intenção de defender seu país de pessoas que afirmam para quem quiser ouvir que seu objetivo é "destruir Israel, varrer o país do mapa e jogar os judeus no Mediterrâneo".

Não existem israelenses surrando mulheres porque saíram às ruas sem usar um véu e também não vemos um presidente ou premier israelense há tanto tempo no cargo quanto os presidentes do Egito e da Síria, os aiatolás iranianos ou o "comandante" Fidel.

Numa equação simples, numa escolha entre o preto e o branco, eu tendo a dizer que preferiria muito mais ser um israelense a ser um cidadão de qualquer outro país árabe, pelo simples fato de que, em Israel, as pessoas possuem dois ítens raros naquela região tão rica em petróleo: liberdade e democracia.

Mas chega a ser uma pena que um povo que sofreu tanto durante a Segunda Guerra não tenha a sensibilidade de poupar alguns inocentes de tanto sofrimento, de evitar assim que se criem cobras que tentarão mordê-los mais adiante, e que forneçam tanta munição para extremistas, autoritários e terroristas nessa "guerra ideológica".

O problema é que por mais concessões que Israel faça, o país jamais poderá dar aos palestinos e ao mundo árabe o que estes realmente desejam que é a sua destruição. E ninguém pode exigir de um povo que este se ofereça ao sacrifício em nome de qualquer coisa, nem mesmo da paz, porque isso não seria paz, seria rendição.

Chego a conclusão de que o homem, o ser-humano, não deu muito certo.
 
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