terça-feira, 10 de agosto de 2010

Exageros de Gourmet

Pouca gente escapa da festinhas de empresa no final do ano, e como não sou um desses privilegiados, tive que cumprir a minha cota duas ou três. Quem já foi sabe como é: ou acontece numa churrascaria e termina com as pessoas bebendo além da conta e cometendo indiscrições e inconfidências das quais se arrependerão no dia seguinte, ou então se dá numa boate, estilo happy hour, com salgadinhos que serão o lucro da farmácia que venderá quilos de sal de fruta para a azia certa do dia seguinte.

Só que uma vez fui numa diferente, nem melhor e nem pior, mas realizada numa dessas casas moderninhas com menus estilosos. O que aconteceu foi que ao invés das coxinhas, bolinhas de queijo e pastéis feitos com a carne assada que sobrou do almoço, eles serviram chutney de acaí, graviola e cupuaçu, canapés de banana com siri (por mais bizarro que isso possa parecer, foi o que consegui identificar), pãezinhos ciabatta miniatura com geléia de pimenta, entre outros acepipes. Não vou dizer que os salgadinhos seriam melhores, mas estaria mentindo se não dissesse que achei esse cardápio, no mínimo, estranho

E isso me fez pensar sobre os exageros que certos restaurantes cometem quando querem ousar demais, porque uma coisa é você pegar ingredientes do dia a dia e "enfeitar" cada um deles, dar um toque regional, especial, e apresentar sabores diferentes ao seu cliente.

Talvez por isso eu nunca vá esquecer de uma rabada já recheada com o agrião - imagine o trabalho que não deve ter dado desossar aquilo tudo e rechear depois - que chegou a vencer um concurso de gastronomia. E quem já foi ao Ateliê Culinário com certeza pôde descobrir que um caldinho de feijão, um cachorro quente e um bolo de laranja podem assumir conotações totalmente diferentes e novas com capricho e inovação.

Já provei pratos inovadores que eram deliciosos. Como um risoto ao brie, com presunto parma e rúcula. Não tem nada mais prosaico do que um risoto, no entanto pequenos toques o transformam em algo sem igual. E isso vale para tudo, desde berinjelas ao mel até uma simples mousse de chocolate meio amargo com umas folhinhas de hortelã e amêndoas por cima.

Mas outra coisa bem diferente é você praticamente chocar seu cliente. Não sou expert em haute cuisine, logo as opiniões que emito são de um mero curioso, ou mais precisamente do sujeito que entra num estabelecimento com fome e quer comer bem, então creio que posso dizer que um "quibe de camarão com nozes" é muito, muito estranho. Podem me chamar de ignorante, mas batizar algo de "quibe", seja lá o que for, não transforma aquilo automaticamente num quibe. É preciso algo que remeta, ainda que de longe, ao sabor de um quibe.

E isso vale para tudo, na minha opinião, claro.

Alem disso esses restaurantes honram a fama de serem lugares para provar comida, ou seja, nem pense em sair de muitos deles com a barriga cheia, não é esse o objetivo. O objetivo é entrar lá com o bolso cheio, porque os preços geralmente valem uma compra quinzenal. Já saí de um restaurante francês onde comi o que seria um steak au poivre vert, direto para uma pizzaria e com a sensação de ter comido meio churrasquinho de gato.

O que é uma experiência bem diferente do tal menu degustação , que vai sendo servido aos poucos, em pequenas porções, e no final você tem a sensação de que comeu um bezerro.

Mas no final das contas, o que importa é o prazer de se estar à mesa, com bons amigos e uma conversa agradável. Sou de família portuguesa e apesar de saber que isso muda nossa percepção em relação à quantidade de comida, já que lusitanos gostam de muita, também me fez associar as refeições a diversão, reunião, confraternização e, claro, boa comida. Exageros de gourmet à parte, esse é certamente um dos maiores prazeres da vida.

Por isso costumo dizer que um bom chocolate para ser melhor do que sexo, só depende da qualidade do sexo, e não do chocolate.

domingo, 8 de agosto de 2010

Se for mandar buscar a morte, mande vir no SAMU

Calma! Não estou desejando mal ao propagandeado programa de socorro e resgate do governo e nem a ninguém.

Essa é apenas uma forma de dizer que desejo que ela demore muito, e se for depender do SAMU é capaz de termos aí um problema de superpopulação, porque a temida senhora não virá nunca. E faço questão de explicar o porque em duas rápidas cenas do cotidiano que eu mesmo tive o (des)prazer de presenciar.

Na primeira eu tinha almoçado num restaurante, era sábado e a casa estava cheia, era um desses estabelecimentos de dois andares, um desses templos de gulodice a quilo, já estava indo embora quando ouço por trás de mim o som de um pinguim rolando escada abaixo. Pensei na hora "pinguins não curtem comida a quilo, como pode?" e olhei para conferir: era uma senhorinha terminando uma cena de pastelão.

Lembrei de todos os episódios de E.R. que já assisti e disse: ela precisa ir para um hospital, pode ter que fazer uma tomografia (falar CT Scan é muito mais cool, mas fazer o que..) e resolvi ligar para o tal 192 do meu celular. O diálogo que veio em seguida é kafkiano:

-Alô? Quero pedir uma ambulância para socorrer uma senhora que caiu de uma escada.

- Pois não Senhor, qual o endereço?

- Rua tal, número tal, em frente ao colégio tal.

- O Senhor pode me dar um ponto de referência?

- EM FRENTE AO COLÉGIO TAL.

- Peço que tenha calma Senhor, essa escada onde ela caiu, está localizada em que lugar?

- Na rua tal número tal, dentro do restaurante tal e qual.

- Mas a escada é dentro do restaurante ou é saindo do restaurante e chegando na rua?

- É dentro do restaurante.

- Entendo. O Senhor pode me dizer a altura da escada?

- Eu não tenho fita métrica aqui, esqueci no meu outro cinto de utilidades, mas calculo que seja algo entre três e quatro metros.

- Três ou quatro metros Senhor?

- Quatro, quatro.

- Muito bem. Essa Senhora, qual a idade dela?

- Não sei, aparenta ter uns 60 anos.

- Ela está acompanhada?

- Sim, o filho está junto dela, socorrendo.

- E qual a idade do filho dela?

- Desculpa, mas isso é realmente relevante?

- Senhor, tudo o que eu pergunto é relevante.

- Não sei, uns 40 anos.

- E o Senhor tem o telefone dele?

- Se você quer um encontro, porque você mesma não pede? Que tal mandar uma ambulância logo?

- Senhor, eu preciso fazer todas essas perguntas, tenha paciência.

- Eu tenho paciência, só não sei se a cabeça dela que bateu no chão umas duzentas vezes enquanto ela rolava escada abaixo vai ter a mesma paciência.

- Ela está acordada?

- Está.

- Lúcida?

- Está tão lúcida quanto alguém de 60 anos, com um filho de 40, que possui o número de celular 9999-9999, que caiu de uma escada de uns quatro metros, dentro do restaurante tal, na rua tal, em frente ao colégio tal poderia estar 15 minutos depois da queda e sem nenhum tipo de socorro.

Foi quando o gerente do restaurante me procurou e disse:

- Amigo, outro dia eu fiquei meia hora com eles e a ambulância não veio. Eu vou pegar o carro do restaurante e levar a senhorinha acidentada para o hospital.

Só tive tempo de dizer para a atendente do 192:

- Muito obrigado pelo quiz. Não precisa mais mandar nada, porque como sempre as pessoas já se viraram sozinhas.

Da outra vez foi em Botafogo, em frente ao Espaço de Cinema. Ouvi aquele barulho característico de uma colisão de automóveis, só que ao invés de frear, o carro continuava acelerando. A mulher ao lado do motorista berrava "Ele está infartando! Ele está enfartando" (coloquei as duas formas "infartando" e "enfartando" para ninguém ficar chateado), fingindo que não lembrava da história da mulher da escada disquei para o 192 de novo.

Mas como seguro morreu de velho - porque nunca dependeu do SAMU - e eu sei que tem uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ali perto, corri pra lá enquanto respondia ao questionário sócio-econômico-e-até-de-vidas-passadas que a atendente do 192 fazia.

Chegando na UPA, recebi a notícia que os médicos e enfermeiros ali lotados não pode ir nem na esquina caso alguém esteja morrendo lá. É preciso trazer o indivíduo até eles. Tudo bem, pelo menos eles devem ter alguma influência e abreviar o atendimento do 192, não é?

Não.

O Cabo do Corpo de Bombeiros estava já há 12 minutos - cronometrados no meu celular - com a atendente num debate interessante: a vítima bateu e desmaiou ou desmaiou e bateu?

Porque se tivesse batido e desmaiado, seria caso de ligar para o 193. Se tivesse desmaiado e batido, aí sim, seria 192.

No meio da discussão filosófico-matemática sobre qual era o número responsável pelo Senhor que agonizava a uns 800 metros dali, eis que chega o enfartado, trazido por um segurança que trabalhava na rua e resolveu ir até a UPA dirigindo o carro da vítima.

O cabo dos bombeiros devolveu o telefone, agradeceu meu "gesto de cidadão" e me confessou ao pé do ouvido "Esse 192 é uma m*!".

Não sei qual foi o destino da senhorinha da escada ou do senhor que desmaiou, mas sei de uma coisa: o cabo estava coberto de razão.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Diálogos de filme pornô não são tão legais na vida real

"Quem é?" "É o entregador de pizza!", "Veio com bastante catupiry?","Desculpe, Sra, mas veio sem...", "Então vamos providenciar algum agora mesmo!"

"Oi, vocês vendem fronhas?" , "Não Sra, aqui é uma sorveteria", "Tudo bem, acho que vou tirar a roupa mesmo assim..."

Como vocês podem notar, roteiros de filme pornô são sempre muito elaborados e desenvolvidos e quem vê o filme nem observa o desenrolar dos fatos que levam os dois, ou três, ou quatro, ou quatrocentos atores a terminarem nus, fazendo sexo selvagem e "natural", afinal, quem duvida daqueles gritinhos e gemidos das atrizes pornô, não é mesmo?

Mas todos eles são pagos por isso, e quem assiste seus filmes não está muito interessado em roteiro, fotografia, direção e muito menos figurino mas sim nas "vias de fato", afinal, tirando aquele cara que quase foi demitido da sua empresa porque o pessoal da manutenção achou todo o acervo do site Peanut Butter Sex no computador dele, ninguém aluga um DVD ou baixa um filme pornô por engano.

E o que dizer de pessoas que acham que um relacionamento fica excitante quando você começa a se comportar como a Tracy Lords ou o Rocco Siffredi? E não estou falando dos dotes físicos ou da disposição de ambos e sim dos diálogos podres e falas robóticas que eles pronunciam durante as cenas.

Porque ainda que você pense o contrário, não é muito legal dizer que ele tem que "colocar a verga na sua grutinha". Sério, acho que nem a pessoa que criou essas frases fala assim. Tem o lado masculino também, do cara que pensa que está em algum filme do Buttman e começa a dizer coisas como "se prepara, safadinha, porque eu vou conferir sua porta de serviço".

Dizem que entre quatro paredes tudo é válido - e ainda que eu ache que quem fala isso curte passar patê de foie na barriga e pedir pro outro lamber - acho que a idéia é válida, mas como sempre, com limites.

Uns tapinhas aqui e ali, tudo bem, mas cuidado pra não terminar a noite na delegacia porque se empolgou e deu umas sapatadas na cabeça da moça. Frear a criatividade hortifrutigranjeira também ajuda, afinal seu namorado pode adorar bananas na salada de fruta, mas detestar em qualquer outro lugar.

Os diálogos também são um terreno minado. Tem cara que pensa que o orgasmo feminino é uma espécie de corrida de 100 metros, aí faz tudo rápido, como se quisesse competir com o Usain Bolt, com direito a torcida e tudo "vai!vai! goza logo! goza, vai!". E a menina? Tem umas que acham que são o Galvão Bueno da alcova e narram a transa inteira "é isso que você queria? é? você tá tirando a minha calcinha é? isso tira a minha calcinha! tá apertando a minha bunda, né? aperta a minha bunda, morde o meu pescoço, nossa! você tá me comendo!".

Pois é, caso ela não tenha notado, sim, o cara está participando da coisa.

A moral da história é que nem tudo o que você assiste na tela e pareça legal - por mais que outros te avisem que é bizarro - funcionará bem no quarto. Por isso é melhor deixar os diálogos nonsense pro fórum de discussão do Seinfeld e a a roupa de Darth Vader pra alguma convenção nerd.

E evitar a todo custo fazer trocadilhos com a espada do Jedi na "hora H".

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Já chega, né!?

Se você é susceptível e não gosta de ver alguém falando fortemente mal dos outros, pode ir direto pros comentários e me chamar de elitista, mau-humorado, antipático e mais quantos outros adjetivos conseguir pensar. Eis uma boa trilha sonora para isso:

Vim, tanta areia andei. Da lua cheia eu sei. Uma saudade imensa... Vagando em verso eu vimVestido de cetimNa mão direita, rosasVou levar...Olha a lua mansa...(me leva amor)Se derramarAo luar descansaMeu caminhar..(amor) Meu olhar em festa...(me leva amor)Se fez felizLembrando a serestaQue um dia eu fiz(por onde for quero ser seu par)

Ao ouvir esses versos cantados por mesas compridas cheias de pessoas em alguma chopperia de subúrbio ou bairro de new riches - a.k.a. Barra da Tijuca - a primeira coisa que me vem em mente é "PQP, isso já deu o que tinha que dar!".

Sei que é legal cantar músicas conhecidas a plenos pulmões, mas existe um estoque de músicas por aí que já está tão batido que se fosse leite teria virado coalhada. O que dizer de rodinhas de violão e aquele maldito, famigerado e asqueroso "Toca Raul!"? Sério, será que nenhum compositor, músico, ET ou bot do Google consegue criar alguma música nova para ser tocada em volta da fogueira ou da rodinha estraga-festa?

Mas quem dera fosse só isso. Pode ser no Rio, em Manaus, São Paulo e talvez até Milão e Berlim (brincadeira), se você sair num sábado à noite e for num Baile de Debutantes, Bar Mitzvah, festa de criança, casamento, aniversário de 23, 32 ou 66 anos, vai se deparar com pérolas da MPB - leia-se Música Porcaria Brasileira - que muitas vezes nem nasceram como porcarias, mas que a repetição nauseante durante sábados e sábados seguidos no decorrer de décadas transformou em lixo.

Afinal, quanto será necessário para um ser vivente enjoar de cantar "Descobridor dos Sete Mares", "Whisky a Go-Go", "País Tropical", "Fio Maravilha" ou "Taj Mahal" e se dar conta de que essas músicas já encheram o saco?

Costumo dizer para as pessoas que eu conheço "posso estar em casa num sábado à noite, mas podia ser pior, eu poderia estar com um monte de gente bêbada e suada em volta de mim, sem pegar ninguém e cantando a plenos pulmões 'Não quero dinheiro, só quero amar'".

Porque, convenhamos, ficar num playground ou salão de festas ouvindo músicas da época do mouse de bolinha não passa nem perto da minha idéia de diversão e já faz certo tempo que cantar "Que país é esse?" e responder em corinho "é a porra do Brasil!" não é algo transgressor, ousado ou engraçado para mim.

São tantos clichês e situações batidas - sem trocadilhos com a bebida - que eu só posso creditar o sucesso e a longevidade dessas canções ao estado de bebedeira total que as pessoas que as cantam se encontram durante essas festas. Tem música que é quase da mesma idade do "Parabéns pra você", é contemporânea do brigadeiro e com certeza é mais velha do que o famigerado "Com quem será..."

Não fosse assim, qual seria a razão de, em pleno 2010, uma pessoa ainda abrir os braços e entoar como se fosse a última novidade do pedaço algo como "é a vida! é bonita e é bonita! No gogó!" já com os pés descalços, colocando seu "lado bamba" pra fora?

Com certeza a vida é bonita, mas pode ficar muito mais se não for tão repetitiva. Pronto, agora pode chamar a "Veraneio Vascaína" pra me prender.

Intensidades diferentes

Em qualquer relacionamento que se preze um sempre gostará mais do outro.

Não existe esse negócio de "balança" no amor. Se houvesse um método para medir a quantidade de sentimento, colocar num aparelho qualquer e depois determinar quantos sentimentrons uma pessoa sente pela outra, creio que não haveria uma quantidade simétrica em nenhum casal do mundo.

E a quantidade não é tudo, existe também a intensidade ou a forma como essa intensidade é demonstrada. Eu sou suspeito, porque sempre fui mais cool nos meus relacionamentos. Emotivo, carinhoso, apaixonado, sim, mas nunca fui intenso, com raríssimas exceções nas quais coloquei meu lado cantor-de-tango para fora. Mas abomino isso, de verdade.

A pessoa que se define como intensa e sente orgulho disso já me faz pensar que apronta barraco em portaria de prédio, que persegue taxi na chuva e que joga pedra em avião. Isso pra dizer o mínimo.

Mas o outro lado também incomoda. Tem quem seja blasé até demais, com aquele sangue frio que só corno de filme americano demonstra. Desses que mantém o maldito controle em qualquer situação. A mulher vira pro marido durante um almoço e diz "vamos ter nosso primeiro filho!" e a resposta dele é "pode me passar o sal?".

Ou então o casal faz um sexo selvagem, daqueles que o cara considera o melhor que já teve incluindo umas duas encarnações passadas e a Playboy da Claudia Egito, olha compenetrado pra ela e diz "eu te amo" e ela responde "Uhuuumm". Porra, "Uhum"?

Se bem de que "eu te amo" é aquele tipo de frase que merecia um tratamento semelhante à convite da maçonaria. Eu explico pra quem não entendeu a comparação: um maçon só vira maçon a convite de outro maçon, que o chama para se candidatar a participar. Mas para que a coisa não fique constrangedora e o cara seja convidado antes de ser "aprovado" pela loja maçônica, eles só fazem o "convite" quando já sabem que a pessoa será aprovada.

O "eu te amo" deveria ser tratado do mesmo jeito. A pessoa só deve dizer isso quando tiver a mínima idéia de que a outra vai responder com, pelo menos, um "eu também". Tanto por amor próprio, evitando assim ouvir algo como um um "porque?" quanto por consideração ao outro, que pode realmente não saber o que dizer.

Porque convenhamos, o outro lado dessa história também é terrível: você está assistindo um Palmeiras x Flamengo no Maracanã, com aquela gatinha com quem sai há 3 semanas. Estão naquela fase que ainda não é namoooooro mas já é um namoro. Seu time faz um gol, você comemora, bebe um gole de cerveja e pensa "tomara que ela esteja no clima de ir pro motel depois, porque quero tentar aquela posição que eu vi no Kama Sutra dos Super Heróis", ou seja, está pensando em sacanagem, aí ela vira pra você e diz "eu te amo".

Qual seria a resposta possível? Tipo, você gosta dela, você até acha que possa vir a amá-la, mas isso não vai acontecer em três semanas e 90 minutos de jogo, qual a resposta possível? "Mas já!?" ? Olha a situação que você colocou alguém. Talvez ele só tenha mesmo um "uhum" como resposta, porque não se responde uma declaração dessas como se fosse um "disponha" quando alguém te agradece.

"Eu te amo" não é um ato de cortesia.

E isso vale para tudo, para a frequência dos encontros, dos telefonemas, para o local dos beijos. Porque a média não é possível de ser encontrada nos hipotéticos sentímetrons, mas é facilmente atingida em ações que busquem um equilíbrio.

Imagina você no trabalho, o telefone toca e é a sua nova namorada. Ela pergunta "e aí? tudo bem?" e você responde "Tudo bem nos últimos 10 minutos em que não nos falamos...", ou então você está no cinema, doida pra ver o último filme do Woody Allen e ele quer ficar ali brincando de desentupidor de pia como se vocês tivessem 15 anos. A moça tenta ser educada e diz "vamos ver o filme, lindinho" e ele, irritadíssimo, pergunta "o que foi? prefere o Woody do que eu? você não me ama?". Ela vai dizer o que? "Sim, prefiro e não, desse jeito nunca vou te amar"?

Como podem ver, é tudo uma questão de intensidade, e de levar a garota pra dar uns amassos no cinema durante uma sessão de Transformers.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Preconceito!

Outro dia eu estava conversando com um amigo e pronunciei a sentença definitiva: a palavra "preconceito" é uma pobre violentada. Mais explorada do que empregado que trabalha como escravo em fazenda de político, ela é usada para obterem lucro qualquer tipo de debate.

O seu uso indiscriminado, tal qual acontece com antibióticos, criou uma nova cepa bactérias intelectuais resistentes ao pensamento.

De palavra pesada e com forte cunho negativo, tal qual "canalha!" ou "petista!", ela foi perdendo sua força, seu significado, de tanto que foi pronunciada para acusar, definir ou justificar tudo, desde a liberação feminina até o direito das pessoas criarem favelas onde deveriam haver árvores, passando por marcas de roupa, tabuleiros de xadrez com sua polêmica mistura preto/branco e até pelo gosto pessoal dos indivíduos.

Diga qualquer coisa que saia do bolo disforme e bege-acinzentado da opinião politicamente correta e fatalmente vai aparecer alguém te chamando de preconceituoso. Bonito hoje em dia, "legal" hoje em dia, é você ser tão contundente quanto pode ser a frase "gosto de verde, mas respeito o amarelo e não deixo de apreciar o valor de todas as demais cores e suas matizes".

E até isso já pode ser ousado demais, visto de você falou de "cores", o que pode ser confundido com "raças" - que aliás não existem, a não ser na hora que se prestam a justificar políticas de cotas e estatutos "raciais" - e isso é polêmico além do necessário.

Uma vez eu disse que acho o cinema nacional atualmente um mero amontoado de capítulos de novelas e séries da Globo em tamanho extra-large. Não demorou nem 5 minutos e apareceu um feliz membro da sociedade que não diz o que pensa me alertando: "olha o preconceito...".

Quase que ouvi a turma atrás dele fazendo um "búúúú!" pra me assustar e me tirar do lado negro da força, desse culto quase satânico do qual participo chamado "pensar e opinar". E a praga vale para tudo, tudo. Faça um teste você mesmo e descubra que qualquer coisa que você pense, qualquer opinião que você tenha, qualquer preferência que você cultive, serão tratados como "preconceito" se não vierem acompanhados de desculpas prévias.

Sua opinião precisa ser forrada por um colchão protetor que ajude com que ela não ofenda ninguém, funciona assim: "Gostaria de dizer que prefiro a Coca-Cola Light, mas isso não quer dizer que eu tenha algo contra obesos ou pessoas que prefiram tomá-la com açúcar e nem que isso seja algum tipo de manifestação pró-diabéticos, o que poderia ofender quem sofre de hipoglicemia".

Se você disser simplesmente "A Coca Light é a melhor bebida do mundo" pode apostar que vai aparecer um pentelho maldito te dizendo "Qual o preconceito contra o nosso brasileiríssimo guaraná?".

"Não curto cinema nacional" Preconceito! "Não gosto de samba" Preconceito! "Não gosto de cerveja" Preconceito! "Detesto funk!" Preconceito! "

Será que já passou pela cabeça desses chatos que, só de leve, pode ser que os outros tenham opinião? E mesmo que a tal opinião não seja do seu agrado, ela não necessariamente estará explicitando algum "preconceito", mas simplesmente essa avis rara da nossa sociedade nivelada por baixo, chamada "opinião"?

Confesso que um dos únicos preconceitos que eu tenho é contra quem usa o argumento do "preconceito" para discordar de qualquer coisa que os outros digam, seja sobre um clube de futebol, seja sobre uma cidade, seja sobre o sabor preferido de sorvete. Sim, porque o ideal da sociedade dos "tolerantes" é o dia em que a opinião pessoal das pessoas se resumir a dizer qual é o seu sabor preferido de sorvete.

O mal do politicamente correto aliás é esse: ele é intelectualmente imbecil, socialmente emburrecedor e definifivamente insuportável.

É um verdadeiro sorvete na testa.

A "STFHC" ou Síndrome do Transtorno por Fernando Henrique Cardoso

Em 2000, os EUA realizaram uma controversa eleição presidencial. A condução do presidente George W. Bush ao seu primeiro mandato talvez tenha sido a eleição mais tumultuada de toda a história daquele país, com recontagens, protestos, e o resultado sendo referendado pela Suprema Corte após intenso debate nacional.

Lembro de ter acompanhado tudo ao vivo pela CNN. Os estados íam sendo colocados um a um na coluna de votos de cada candidato, o então vice-presidente, o democrata Al Gore, e o então governador do Texas, o republicano George W. Bush, sobrando ao final apenas a Florida.

Os eleitores do Partido Democrata até hoje consideram que aquela foi uma "eleição roubada", a despeito de Bush ter vencido todas as recontagens realizadas naquele estado sob todos os métodos possíveis. Fosse por 500 votos ou por 100 mil votos, ele nunca ficou atrás de Gore ali, mas os democratas jamais perdoaram aquilo.

Já em 2008, quando Bush sairia da Casa Branca ao final do seu segundo mandato, a eleição não parecia ser entre o atual presidente Barack Obama e o candidato republicano John McCain, mas entre os democratas e George W. Bush.

Mesmo sem concorrer a mais nada, ele permanecia presente nos debates, nas propagandas, nos ataques. O sentimento geral entre os eleitores de Obama é que eles deveriam "vingar" a derrota de 2000, a "eleição roubada", e fazer justiça. Não foi surpresa quando, já eleito, o presidente Obama e seu partido começassem a falar de uma "herança maldita". Este termo desperta alguma lembrança sobre a política brasileira?

Se não despertar deixe-me refrescar sua memória: foi assim que o atual presidente Lula batizou o legado de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. A despeito de ter mantido a política econômica, de ter mantido a política de privatizações e concessões, de ter mantido e ampliado o programa de Bolsas, transformando-0 em carro-chefe de seu governo, Lula e os petistas até hoje falam de FHC como se ele fosse o "coisa ruim". Porque?

Antes de mais nada, deixe-me dizer que não sou grande fã do governo de Fernando Henrique. Não foi um bom momento econômico porque o mundo não ajudou, e o Brasil ainda não tinha os fundamentos econômicos sólidos que o permitiram resistir àquela crise como resistiu à de 2008. Mas a cada dia me torno mais admirador da postura republicana que ele manteve durante a sua sucessão, bem diferente deste comportamento de caudilho que Lula exibe agora.

Cada vez que FHC diz algo, que aparece na TV ou emite uma opinião em sua coluna dominical nos jornais, os petistas reiniciam o linchamento moral e histórico a que se dedicam desde o primeiro dia em que se aboletaram no poder. Mas porque? Lula não é o mais popular de todos? Não é "O Cara"?

Simples: porque após o impeachment de Collor, o PT considerava que era direito seu eleger o próximo presidente. A eleição de 1994 seria apenas um ritual que conduziria o "líder metalúrgico" ao Planalto. Por isso foram contra o Plano Real, o qual chamavam de "eleitoreiro".

E foi justamente por causa do Plano Real que levaram uma coça nas urnas. E levaram outra coça em 1998, junto com outro populista sem nenhum cacoete para administrador como o ex-governador Leonel Brizola, o "arquiteto das favelas" do Rio de Janeiro. E eles não perdoam FHC por isso.

Tiveram a chance de levar seu "estimado líder" ao poder em 2002, coisa que os americanos não puderam fazer com Al Gore, já que a política daquele país até admite uma segunda candidatura, mas jamais admitiria um perdedor de 4 eleições sem trabalho fixo - a não ser o de candidato presidencial profissional - continuar tentando até conseguir.

Mas não foi o bastante. Porque não foi contra FHC, o cara que "roubou" o direito deles elegerem o presidente em 1994.

E quem sabe como seria caso tivessem conseguido o poder naquela época. Pelo empenho que demonstram em eleger uma inepta como presidente agora, não é de se espantar que caso o PT estivesse no poder já há uns 16 anos hoje seríamos uma república companheira, que escolhe seus sucessores como um Vaticano Sindicalista.

Mas isso não aconteceu. Não aconteceu porque o ex-presidente Itamar Franco não deixou que o país naufragasse após o impeachment de Fernando Collor. Não aconteceu porque o Plano Real tirou o Brasil da ciranda inflacionária e plantou a semente da inclusão de milhões de cidadãos na sociedade de consumo. Não aconteceu porque ainda não foi daquela vez que funcionou a política do "quanto pior, melhor", tão cara ao PT quando eles estão na oposição. Não aconteceu porque no meio do caminho da trupe palanqueira tinha uma eleição e porque eles perderam essa eleição.
O culpado? Fernando Henrique Cardoso, e ele precisava e ainda precisa ser punido. Seja com dossiês contra sua esposa, já falecida, seja com o linchamento histórico que sofre por parte dos bate-paus petistas.

Ele precisa-ser-punido.

Afinal, chutou a bunda do "Cara" nas urnas duas vezes e isso é mais do que eles podem suportar.
 
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