terça-feira, 29 de junho de 2010

O mesmo ano todo dia

Acordavam todos os dias sob o peso seguro da rotina. Mal se olhavam, mal se viam, ocultos sobre tanto mesmo. E assim passava o tempo, assim passavam-se os meses, os anos, que só não passavam desparcebidos por causa do ritual mecânico, seguro, rotineiro do dia 31 de Dezembro.

Mas, não fosse por isso, os anos seriam dias, de tão iguais. O mesmo ano acontecendo todo dia.

A rotina, ou melhor, a mesmice, é como um monte de terra que a pessoa vai colocando sobre si. Até um certo momento, aquilo é voluntário, reversível. A partir de um ponto, que não sabemos muito bem qual é, torna-se compulsório. O peso é maior do que a nossa vontade de retirar tudo de cima, e só nos resta continuar depositando ali, grão em grão, resignadamente, aquela terra que terminará nos matando.

É assim, grão em grão, que casais acordam um dia mal se olhando, grão em grão, mal se falando, grão em grão, mal se desejando. É assim, grão em grão, que nossa juventude vai embora, levando na sua grande bagagem sonhos e, mais do que sonhos, esperanças e, mais do que esperanças, nosso sopro de vida.

Nos tornamos a conta não paga, a academia faltada, a TV ligada. Nos tornamos o beijo não dado, o encontro não marcado, o coração que só não desliga de sua função mantenedora de vida, vida quase vazia, quase cheia, vida quase.

O cheiro gostoso do feijão fresco, que lembra nossa infância, o filme recém-lançado, o doce da confeitaria predileta, uma dose de bom whisky. A fumaça do cigarro, que dança quando a sopramos. A fumaça do café, que dança e acaricia. O cheiro do perfume, o gosto do nada presente em nossos pequenos gostos, em tudo aquilo que usamos para nos definir, já que todo o resto da nossa vida não nos define.

E vem a hora do almoço, o dia chega ao meio, cada garfada levada à boca traz consigo tudo aquilo que engolimos junto com a comida, nossos sentimentos contidos.

O riso, o lamento, o choro, a epifânia, cair na real. Passamos a maior parte da vida entre sentimentos mornos, porque julgamos que nosso coração, nosso corpo e nossa mente não teriam resistência suficiente para viver mais vezes nos extremos.

E assim resistimos ao extremo do não sentir. Do sorriso contido, da alegria calculada, do choro preso, da gargalhada abafada, dos amores desperdiçados, sempre de olho no passado. Dez, vinte, trinta vezes nos machucam, porque deixar que façam isso outra vez? Porque deixar que alguém, quem sabe, nos surpreenda?

Ele é assim mesmo. Ela é assim mesmo. Eu sou assim mesmo. Porque mudar? Porque oferecer-se e ofertar algo diferente, se o mesmo dá certo? Dá certo? Dá mesmo? Então pensando nisso, você agora sorri um sorriso de graça? De afirmação? De ironia? Ou de resignação? Ou não sorri sorriso algum?

Mas já é noite, ao voltar para casa quase desejamos a felicidade descompromissada do velhinho que assobia velhas canções ao nosso lado, rosto vincado, moreno, cabelos muito brancos e aquela tranquilidade de quem já amou todos a quem deveria amar, já sofreu por todos por quem deveria sofrer, soprando música do peito, como quem não precise mais que o amem, o desejem, o necessitem.

E ao chegar, o boa noite trocado mecanicamente é levado embora no banho, descendo pelo ralo junto com a água e mais um pouco de você. Um redemoinho de poeira, espuma e urgências.

Beijos, gemidos, suor, fluidos. Excelente filme, meio pornô para o horário, mas muito bom. É hora de ir para a cama.

E mal se olhando, mal se vendo, ocultos sobre tanto mesmo, puxam sobre si o cobertor da noite, dormindo todos os dias sob o peso seguro da rotina.

Criança e Consumo

"Nunca vou esquecer quando meu filho de 3 anos pediu para eu ir ao posto Shell”, diz uma das mães entrevistadas no filme "Criança, a alma do negócio", digirido pela cineasta Estela Renner.

Esse assunto sempre despertou minha reflexão, pois convivo quase diariamente com duas crianças na faixa dos sete anos e percebo a influência avassaladora da publicidade nas suas vidas.

Sejam lanchonetes transformando a comida numa forma de ganhar brinquedos, sejam fabricantes de junk food invadindo a casa das pessoas através da TV e incutindo hábitos cada vez menos saudáveis nas crianças, seja a simples necessidade de possuir um determinado brinquedo para ser "igual" aos coleguinhas ou até mesmo a erotização e o abreviamento da infância através de roupas, hábitos e programas que criam mini-adultos, percebo que a infância cada vez mais é vista como um negócio e as crianças como forma de tomar dinheiro dos pais.

Tudo isso ficou mais claro ainda quando recebi por email a compilação de vídeos abaixo:

Esqueça a ética. Esqueça o respeito pela fase mais bela e importante das nossas vidas. Não sou um desses conspiratórios que vê inimigos em tudo, mas também não tenho dúvida alguma de que empresas só se preocupam com a saúde de um único órgão do consumidor: seu bolso. O resto que se dane.

E é muito mais fácil atingir o bolso dos pais através dos filhos, já que é muito mais fácil convencer uma criança do que um adulto. E o que vemos a partir dessa idéia? Bancos, administradoras de cartão, grandes magazines, supermercados, fabricantes de automóveis e diversos outros ramos de negócio apostando em mascotes, em desenhos animados, em brindes para os filhos do potencial consumidor, na clara intenção de influenciar a família através do seu ponto mais "fraco".

"Mãe, vamos ao posto da Shell!" - É claro que a preocupação do menino não era com a qualidade da gasolina ou os 30 dias para pagar a conta no cartão de crédito, e sim algum brinde anunciado pela rede de postos.

Num primeiro momento a mãe poderia pensar "que mal há nisso?", mas se ela pensar mais a frente verá que a empresa abriu mão de negociar com um adulto para obrigá-lo a ir até ela através do convencimento do seu filho, transformado em promotor de vendas.

Tradução: não quiseram lidar com gente do seu tamanho.

E cada vez mais encontramos essas influências negativas da indústria e da propaganda sobre a infância. Isso gera estresse familiar, porque você pode estar passeando num shopping com sua filha, dar sorvete a ela, levar ao cinema, comprar um vestido que ela achou bonito e ainda dar um bichinho de pelúcia de presente, mas se ela passar na frente de uma loja de brinquedos e ver a "Barbie Astronauta Missão Marte" e você não quiser gastar 100, 200, 300 reais naquela coisa, porque sabe que ela já tem a "Barbie Lua" e a "Barbie Júpiter", a criança vai reclamar, chorar e estragar o seu passeio.

Os pais que tem algo na cabeça preferem frustrar a criança - já que educar é sim, frustrar - do que gastar seu dinheiro para comprar 20 minutos de paz, mas uma grande parcela prefere comprar a felicidade instantânea do filho, fazendo justamente o que a indústria da propaganda espera que ela faça.

A pergunta que sempre me faço em relação a estes pais é: e o dia que o filho ou a filha estiverem crescidos, um amigo da faculdade ganhar um Audi e a família só puder dar a ele um Celta, ou não puder dar carro algum? O que se pode fazer nesse momento? Porque a educação dada, o exemplo dado, é o não-exemplo, é o não-limite.

Não precisamos alienar nosso filho da sociedade. Ele pode comer McLanche Feliz e ganhar seu brinde de vez em quando, pode ganhar brinquedos mais caros no aniversário, Natal e Dia das Crianças, pode aderir a algumas modas, mas deve saber que aquilo é a exceção, é a concessão, não é o normal.

O normal é arroz com feijão, é um brinquedo barato, é uma roupa de criança, é brincar na praça, é o dever de casa, é ficar descalço no quintal.

Amar também é dizer não.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Mal na Foto

Regras existem para pôr ordem em certas coisas e para serem usadas em todo o tipo de inutilidade também. É raro quem não reclame da falta de leis no Brasil, sem saber que temos leis até demais, e que o problema não é a ausência delas e sim a falta de cumprimento e a quantidade de leis inúteis.

Falo isso porque ocorreu um episódio comigo que traduz bem essa tara por regras, ainda que sejam de uma inutilidade digna de um legislador de Brasília. Fui ver uma exposição de fotografias na Caixa Cultural, no Centro do Rio de Janeiro, chamada World Press Photo, com as melhores imagens do fotojornalismo em 2009/2010 escolhidas pelos organizadores.

Como já tinha ido nessa mesma exposição ano passado, e na ocasião observei alguns fotógrafos (não eram contratados do evento, mas frequentadores mesmo) com câmeras profissionais registrando tudo, inclusive as fotografias expostas, retirei a câmera compacta que me faz companhia diária da mochila e fotografei uma moçinha de boina que admirava compenetrada uma das fotos expostas.

Era um desses belos instantes que contam uma história e desejei eternizá-lo. Fiz a fotografia e quase instantâneamente um segurança engravatado veio em minha direção dizer que era "proibido fotografar ali".

Vejam, entendo que não se possa fotografar pinturas, pois a luz do flash causa danos às cores das tintas, entendo que não se possa fotografar algo sigiloso, que possa ser copiado, entendo perfeitamente que não se possa fotografar ou filmar um espetáculo que comercializará sua imagem posteriormente, mas não poder fotografar dentro de uma exposição de fotografias que são inclusive disponibilizadas na internet me parece uma boçalidade digna de um criador randômico de regras inúteis.

Quem iria ali tirar uma foto em close e depois apresentar como se fosse sua? Uma cara-de-pau desse tamanho receberia a justa punição em um tribunal.

E como muito bem disse o fotógrafo Erico Elias "A fotografia revolucionou o panorama das artes justamente por seu potencial de reprodutibilidade(...) porque proibir que se fotografe dentro de exposições de fotografia? Porque tratar fotografias como obras de arte intocáveis e únicas, emparedadas e vigiadas? Alguns fotógrafos já exploraram a relação entre os museus e seus visitantes, caso de Elliott Erwitt e Thomas Struth. Imaginem se fossem proibidos de fotografar!".

Tive que dizer ao tal segurança que achava isso"engraçado", ele nervoso "Qual é a graça?", respondi "Ué, isso de não aceitarem câmeras fotográficas dentro de uma exposição de fotografias".

Ao que ele respondeu "Você está me chamando de engraçado?", e eu "Não, disse que isso é uma coisa engraçada, porque se estes artistas expostos aqui dependenssem da Caixa Cultural para produzir suas obras, eles não poderiam estar na Caixa Cultural expondo, porque a Caixa Cultural não permite câmeras", e ele "É uma ordem da diretoria (porque essa gente acha que a palavra "diretoria" deva assustar alguém?) estou fazendo o meu trabalho", e eu "Sim, eu sei que faz parte do seu trabalho transmitir esse tipo de regra engraçada aos outros".

Dito isto, guardei a câmera de volta na mochila e notei que o segurança chamou outros dois "parceiros" para ficarem me "observando". Incrível, porque não me neguei a guardar a câmera, não o ofendi, não continuei fotografando e, mesmo que fizesse tudo isso, ele dava uns dois de mim e me retiraria dali facilmente, mas como dizem no sul, difícil a valentia que ande sozinha e como eu digo aqui da minha casa mesmo: a ausência de um terno não dimunui um homem em nada, assim como a presença de um terno não transforma um energúmeno em homem.

Mas o despreparo de funcionários de baixo escalão no Brasil e especialmente no Rio de Janeiro, a terra dos péssimos serviços, não é surpresa, surpresa mesmo continua sendo o banimento do ato de fotografar em uma exposição de fotografias, banimento este que não servirá para guardar nenhuma propriedade intelectual, já que as imagens estão disponíveis na internet (e quem vier me falar em marca d'água, eu apresento o Photoshop CS5 que remove uma em longos 2 segundos), e servirá somente para impedir a captura de novos momentos, como o que coloco abaixo, fruto do meu "crime":


A Caixa Cultural ficou mal na foto.

domingo, 27 de junho de 2010

Ópio do Povo

João, que poderia se chamar José ou até mesmo Chico, mora em uma rua de um mal servido subúrbio do Rio de Janeiro, mas que poderia ser de São Paulo, de Salvador ou do Recife. João, que poderia ser José ou Chico, é casado com Joana, que poderia ser Maria ou Josefa e, juntos, eles têm cinco filhos, que poderiam ser quatro, assim como poderiam ser seis ou, quem sabe, dez.

E assim João, que poderia ter qualquer outro nome, acorda de manhã bem cedo para pegar um ônibus lotado, que daria no mesmo se fosse um trem lotado ou uma lotação ilegal e lotada, para chegar na hora no colégio particular onde trabalha como faxineiro, um colégio desses que os filhos dos ricos estudam e os quatro ou cinco ou dez filhos de João, José ou Chico jamais poderiam estudar.

Ele não acha esse o melhor trabalho do mundo, mas o que mais ele poderia fazer? Poderia ser pedreiro, poderia ser servente, poderia ser office-boy, poderia ser frentista de algum posto de gasolina, poderia ser balconista de padaria, lavar carros, aparar grama, porteiro não poderia ser, porque não sabe ler e nem escrever muito bem. Gari também não poderia, porque exige segundo grau completo e João só estudou até a quarta-série.

Só não poderia virar bandido, porque isso ele não queria ser. Não porque se achasse muito melhor do que eles, mas porque sabia que seria preso. Sabia também que no Brasil é gente como ele que acaba morto ou na cadeia e, sabe como é, ele tinha cinco filhos para criar. Não é tanta coisa como dez filhos, mas já dava um trabalho danado, um trabalho quase tão grande quanto se fossem seis.

Aliás, João está preocupado por conta disso. É que Joana, que poderia ser Maria ou Josefa, acha que está grávida outra vez. Não é que não goste de ser pai, pelo contrário, é uma das poucas alegrias verdadeiras que tem na vida, mas é que criar cinco já é uma complicação.

Ainda mais porque o posto de saúde quase nunca tem médico disponível e, quando tem médicos não tem remédios, quando tem remédios não tem enfermeiros, quando tem enfermeiros não tem como fazer exames e, se por algum milagre, um dia tiver médicos, remédios, enfermeiros e exames, estará tão lotado que João terá que esperar tanto que, quando finalmente chegar sua vez de ser atendido, quer dizer, a vez de Joana, alguma coisa já estará em falta de novo.

Essa preocupação está acabando com o dia de João, mas ele não se desespera muito porque sabe que se não fosse a gravidez de Joana, seria a bronquite do filho mais velho ou quem sabe a greve na escola do mais novo, ou então o preço do feijão, da passagem, o vale que terá que pagar no final do mês ou o carnê de prestações que usou para comprar um aparelho de TV, para assistir o futebol no Domingo e para Joana ver as novelas durante a semana.

Vida de João não existe sem preocupação, pensava ele quase rindo da rima criada quase sem querer.

Mas neste mês especialmente João tinha uma outra preocupação, maior do que todas as outras. Este era um mês diferente, porque é um mês que só acontece muito de vez em quando, de quatro em quatro anos. João queria chegar logo em casa, porque junto com os amigos da rua iria enfeitar o lugar onde moravam com bandeirolas verdes e amarelas, pintar o asfalto esburacado com caricaturas de jogadores da Seleção e combinar o churrasco que fariam no dia do jogo de estréia na Copa do Mundo.

Acordar de madrugada naquele mal servido subúrbio, pegar o ônibus lotado para trabalhar como faxineiro numa escola que, se pudesse ter freqüentado, jamais teria que ser faxineiro, a incerteza da chegada de mais um membro da família que ele terá que amparar sozinho, já que ninguém mais parece ligar para eles, os preços, a vida, nada disso tinha importância naquele momento, o que importava agora era enfeitar sua rua, se reunir com os amigos, assistir a Seleção.

O que importava agora era que o técnico não deixasse o craque de fora, escalasse o time com a ofensividade e a arte que se espera do futebol brasileiro e que, no fim daquelas sete partidas de Copa do Mundo, o Brasil pudesse sair campeão mais uma vez.

Aí João, que poderia se chamar José ou até mesmo Chico, poderá encher o peito de ar e gritar a plenos pulmões: eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!

Não sei com que orgulho, não sei com que amor.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Os donos de cachorrinho

Infelizmente não tenho como saber de onde são todas as pessoas que me lêem, aliás, me surpreenderia em saber que são mais do que os dedos das mãos, mas eu sou do Rio de Janeiro, moro e padeço no Rio de Janeiro, só que tenho quase certeza de que o que vou contar agora afeta moradores de várias cidades brasileiras e, quem sabe, até algumas do mundo.

Se você gosta muito de cachorros, pare de ler aqui. Dessa forma você talvez não vai sentir impulso de me xingar depois, se não gosta, se não liga para os au-aus ou se convive com opiniões diferentes, vamos lá.

Pra começar, eu não entendo o que leva alguém a coabitar com um cachorro de grande porte num apartamento, sinceramente, não entendo como alguém consegue conviver com qualquer cachorro num apartamento. Um gato tem sua caixa de areia, solta uns pelos aqui e ali, mas é um bicho ideal para viver dentro de casa, mas cachorro? Cachorros babam litros, tem uma morrinha assustadora, são espaçosos, carentes...

Mas tudo isso é problema de quem deseja conviver com um chafariz de saliva dentro de casa. A coisa complica é da porta para fora.

No meu prédio tem um sujeito que, da portaria, a gente já sabe que ele andou com o cachorro no elevador por causa do fedor que fica. O bicho parece que já morreu e só falta enterrar e o "sem noção" nem liga. Já falaram, pediram, conversaram, reclamaram e todo dia lá está ele, com seu animal que cheira a chorume andando pra cima e pra baixo.

Podem argumentar que esse é um caso isolado ou raro, mas tem mais, sempre tem mais. E quando o indivíduo é dono de um pitbull ou cão-fila, grande, agressivo, amedrontador e teima em andar na rua com aquela fera sem coleira, sem focinheira, sem um tiro de tranquilizante? O mala vai dizer "não precisa ficar com medo, ele não faz nada". É, não faz até o dia que fizer.

Aí ocorrem casos como o de um policial que deu um tiro na cabeça de um desses cachorros que estava atacando uma criança, e o dono do cachorrinho fica indignado, porque o sujeito "matou um pobre animal". Infelizmente o animal errado se deu mal, porque o cachorro pelo menos é irracional, já os donos de cachorrinho são quase irracionais.

Mas supondo que o cachorro não cheire muito mal e nem tenha vocação para atuar naqueles filmes de terror estilo "Vingança dos Dobermanns", sobram as necessidades fisiológicas do bicho, que geralmente são feitas no meio da rua.

Não sei como funciona em todas as cidades, mas no Rio de Janeiro as calçadas são os banheiros dos cachorrinhos. Quando o dono tem alguma consciência, anda com um saco plástico para recolher as fezes e jogar no lixo, o que é bom para a cidade mas torna ao meu ver ainda mais incompreensível o fato de alguém optar por ter um cachorro.

É como se você tivesse que trocar fraldas sujas de cocô o resto da vida, sem que o bebê crescesse nunca. Aliás, é pior, porque o cachorro cresce e você continua tendo que limpar o cocô que ele faz. Eu não consigo imaginar a infâmia do contato, ainda que separado pelo plástico da sacola, da mão da pessoa com aquele monte de bosta quente, recém depositada na calçada. Mas esses são os - poucos - conscientes.

Grande parte dos donos de cachorrinho deixa o presente ali, pra carimbar a sola do sapato de alguém que provavelmente optou por não ter cachorrinho em casa justamente para não ter que conviver com isso. Sem contar que o cheiro da urina fica, já que ninguém leva o seu pastor alemão para passear carregando junto balde, creolina e esfregão.

Finalizo com uma excelente tirada do humorista americano Jerry Seinfeld, que disse que se uma nave espacial chegasse ao Planeta Terra e visse um ser alimentando o outro, dando banho, recolhendo suas fezes, entre outras coisas, os ETs diriam para os cachorros: "levem-me ao seu líder".

Porque chega a ser engraçado quem ainda se acha "dono" deles depois dessa.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pudim

Terminavam um almoço durante mais um dia de trabalho, um hábito mantido desde o início do namoro, já há algum tempo. Ela, que se alimentava como uma predadora, já havia terminado a sobremesa, enquanto ele ia metodicamente esculpindo formas em seu pedaço de pudim de leite.

Falaram sobre cinema, sobre o país (ela falou bem, ele mal), sobre o tempo (ela combinando uma praia no final de semana, ele rezando para que o inverno chegasse logo e levasse embora aquele calor horroroso), sobre quase tudo, como aliás era um hábito em seus almoços habituais.

Até que por falta de assunto ou talvez mesmo para variar um pouco o seu jeito blasé, de quem não liga para sentimentos, ela fulminou a pergunta inesperada:

- Quanto você gosta de mim?

Ao que ele, desajeitada e desinteressadamente respondeu:

- Muito.

Ela insistiu:

- Não, muito é relativo. Seu muito pode ser meu pouco ou até pode ser que seja demais, seja mais específico e capriche na resposta, porque sabe-se lá quando eu vou querer falar sobre isso outra vez...

Ele pensou, pensou, logo ele que adorava falar de sentimentos e "discutir relação", naquele dia exatamente estava mais para gato do que para cachorro (quem já teve os dois animais em casa vai entender o que eu digo) e queria apenas terminar aquele delicioso pedaço de pudim, que ele devorava em colheradas calculadas, para que trouxessem sabor suficiente sem no entanto abreviar demasiadamente o prazer.

Sempre poderia pedir outro pedaço, é claro, mas aí a ouviria reclamar dizendo para cuidar da saúde, da forma, enfim, conversa demais só por causa de um pedaço de pudim sobressalente.

Depois de fazer um silêncio cheio de suspense, mas sem nem pensar em fingir que esqueceu o assunto, já que ela estava olhando pra ele com uma cara de criança esperando para entrar numa piscina de bolinhas, ele parou e disse, quase grave:

- Está vendo esse pedaço de pudim que eu estou comendo?

E ela:

- Claro, você está demorando mais nele do que eu demorei para ler Guerra e Paz, o que tem?

- Olhe bem para ele, vê que eu tirei a parte do fundo que fica mais queimadinha, tirei a de cima que fica doce demais e tirei as bordas que a geladeira deixa mais ressecadas do que o meio?

E ela impaciente:

- Sim...

- Notou que eu deixei justamente para o final esse miolo branquinho, macio, que para mim tem um dos sabores mais deliciosos que eu conheço? Percebe como eu guardei esse pedaço para o grand finale da minha sobremesa?

Ela:

- Pergunto sobre nós e você me descreve a anatomia de um pedaço de pudim?

Ele:

- Pois é, se você agora me pedisse esse último pedaço, eu daria tranquilamente para que você o devorasse que nem uma leoa com fome, é isso o quanto eu gosto de você. Meu maior prazer é o seu.

- Então prova e me dá o pedaço...

Ele estende a colher e ela come, de uma vez só.

- Hummm, estava realmente uma delícia. A propósito, eu também te amo.

Pisca o olho e diz:

- A gente se vê depois do trabalho.

Sorri, um sorriso iluminado, dá um beijo gostoso, doce, em sua boca e levanta saindo do restaurante balançando seu rabo de cavalo como se fosse o pêndulo de um relógio de parede.

Ele sorri.

- Garçon, mais um pedaço, por favor?

terça-feira, 22 de junho de 2010

Brasil? Pelé! Mulata! Favela!

Dependendo de onde a pessoa nasceu, o lugar passa a defini-la. Já faz muito tempo, mas o Rio de Janeiro já foi cheio de "Pernambucos", "Mineiros" e "Paraíbas". Com o aumento da migração e o ataque do politicamente correto, as alcunhas foram praticamente aposentadas.

Mas experimente alguém vir de Roraima ou do Acre para ver se não se tornará rapidamente "o Roraima" e "a acreana". É que a menos que você seja de lá ou vá morar por algum motivo, vai conhecer mesmo pouca gente desses lugares. E assim também acontece com gente de lugares remotos como Manaus ou de municípios menores, porém de nomes tão exóticos quanto Bofete (SP), Varre-e-Sai (RJ), Ressaquinha (MG), Coité do Nóia (AL), Xangri-lá(RS), Uauá (BA), Nhecolândia (MS), Quincuncá (RN).

Só com muita sorte alguém de um desses lugares não ganhará um apelido referente a eles. Acho que as pessoas só não gostam de brincar com quem vem de Pau Grande (RJ), porque aí o apelido ajudaria a vítima ao invés de caçoar dela.

E isso funciona também em relação aos países do mundo. A menos que o viajante seja do Djbouti ou do Quirguistão, provavelmente haverá algum estereótipo ligado à sua terra que será mencionado quando ele anunciar de onde veio.

Até o Cazaquiatão já tem o Borat pra isso. Se o turista for argentino falarão de churrasco, Evita, Gardel e Maradona, a menos que ele esteja no Brasil, onde falarão de catimba, pouco apreço por tomar banho e outras grosserias disseminadas pela nossa televisão.

Um brasileiro passeando no exterior fatalmente ouvirá a tríade-maldita "Pelé-Mulata-Favela" quando disser de onde veio, o que me deixa fulo da vida, não tanto pelas menções, mas porque eles tem alguma razão em achar que não produzimos muita coisa além de batuque e barracos nos últimos 100 anos.

Mas o que me irrita mesmo é estar em algum lugar e alguém vir me dizer que conhece um "restaurante brasileiro maravilhoso, com feijoada, caipirinha e um sambinha". Sim, claro, como sou brasileiro tenho a mente tão limitada que mesmo na Europa ou nos EUA só consigo me divertir ouvindo batucada e comendo porco esquertejado. Sei que a intenção não é ofender, mas me ofendo mesmo assim.

É como você virar para um americano e dizer "Estados Unidos? Ahhh! Fast-Food! Gente gorda! Malucos que atiram nos outros dentro de lanchonetes!" ou então conhecer um francês e dizer "França? Queijo podre! Desodorante vencido! Não toma banho!".

E tem pra todos os gostos: "Italiano? Mora com a mamma até os 50! Comedor de lasanha! Só fala gritando!" ; "Português? Tamanco! Mulher de bigode! Ceroulas!".

Entendem? Qualquer um acharia isso um saco, menos algum sujerito lá de Pau Grande, que provavelmente iria adorar se alguém dissesse "Pau Grande?Quanto você calça?".
 
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