sexta-feira, 30 de julho de 2010

Santo Chuveiro

Não sei se o fenômeno só acontece comigo ou se é algo como ciúme ou dor de corno, que todo mundo sente pelo menos uma vez na vida, mas basta que eu ligue o chuveiro que começo a divagar mais do que estudante da PUC que curte fumar uns cigarrinhos naturais enquanto ouve forró universitário.

É incrível como resolvemos tudo debaixo do chuveiro. Viramos cantores, líderes mundiais, ensaiamos discursos, compomos canções, pensamos na vida. Eu pelo menos considero a experiência mil vezes melhor do que o travesseiro.

Muita gente deve fazer o mesmo, e tenho até dúvida se não foi assim que o Lula pensou que iria resolver a crise no Oriente Médio. Estava lá passando creme rinse na barba e matutou "vou juntar aqueles árabes em volta de uma churrascada e resolver essa briga". Tudo fica incrivelmente mais simples debaixo do chuveiro, até a complexa simploriedade do nosso presidente.

Quantas vezes você não está doido pra tirar férias no trabalho e ensaia o discurso ali, com direito a réplicas do chefe imaginário e tudo. Pena que já no dia seguinte, quando você pretende colocar em prática aquilo que deu tão certo enquanto estava ensaboado, você pergunta algo como "tem um tempinho livre?" e o chefe responde "não". Assim mesmo, um lacônico "não" que definitivamente não estava nos planos e torna inútil toda a divagação do dia anterior.

E isso vale com a gostosa da academia que você quer chegar em cima e, para isso, fez um diálogo solitário durante mais de uma semana e no final das contas descobriu que ela está afim mesmo é do professor de spinning que trabalha como gogo boy nas horas vagas.

Vale para aquele papo que você vai dar no seu primo recém-separado que chegou na sua casa pra passar "só uma semana" e transformou seu sofá da sala em um misto de kitchnet com almofada de poodle. Você chega decidido a botar ele dali pra fora, pede um minuto pra conversar e antes que você possa falar qualquer coisa ele declara "nem a minha mãe seria tão boa pra mim quanto você está sendo".

Agora me diz, algum cretino é assim tão gente boa debaixo do chuveiro? Que nada! Na cena imaginada durante o banho seu primo te xingaria, diria que sua casa é um chiqueiro, que só ficou ali tanto tempo porque você é um otário e justificaria o pé na bunda que você está doido pra dar nele.

Só que a gentileza é a armadilha do mala, e você acabou de cair numa.

Tem muita gente que vira ator pornô no chuveiro, o único problema é que faz o papel do Rocco e da Tracy Lords ao mesmo tempo.

Sob a espuma do banho eu já invadi a Europa, já fui eleito e reeleito presidente do Brasil umas 20 vezes e já fui até marqueteiro de campanha presidencial americana. Já fui também cineasta, comentarista e técnico de futebol, ritmista de escola de samba (ainda que atualmente deteste qualquer tipo de batuque) e já até separei a Bahia do Brasil, declarando o axé music proscrito em todo o território nacional.

E pensando nisso, acho que certos caras como o Fidel, o Hugo Chávez, 90% dos ongueiros do mundo, comentaristas de arbitragem, fãs de bandas emo-adolescentes e outros indivíduos iguais a estes, tão inúteis quanto o exército suíço, deveriam fazer o mesmo: restringir suas atividades ao período do banho, já que ali ninguém enche o saco de ninguém.

Infelizmente só não posso pedir que os políticos em Brasília façam o mesmo, porque sabe como é, eles vão acabar roubando o shampoo, o sabonete e aumentando a conta da água.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

No começo tudo são flores

Acho que logo depois de me ensinarem na prática o que significava "se você fizer isso vai levar uma surra de chinelo" me disseram que "no começo tudo são flores". Você nem precisa gostar tanto de flores assim, basta concordar que tudo no início é bem melhor do que do meio pro fim (exceção a um show de pagode, que quanto mais perto do fim estiver, melhor).

Esse aliás é um dos maiores clichês da vida amorosa junto com "só damos valor quando perdemos" e lá pelos meus 14-15 anos finalmente aprendi que no início realmente tudo é bem mais florido. Deixando as metáforas de 1920 de lado, no início você ainda não teve tempo de encher o saco daquele barulhinho que ela faz quando está fazendo conta de cabeça, da mania que ele tem de sempre comer dois pacotes e meio - o detalhe do meio pacote é importante - de M&Ms de amendoim quando vai ao cinema, do hábito que algum dos dois tem de ligar às 6:00 da manhã "só pra dizer que te ama", enfim, é o tempo que determina o prazo de validade de certas coisas que a gente nem percebe que incomodam no início.

E geralmente, na empolgação, cometemos erros que depois só pioram a situação. É comum aquela paixonite que todo coração vazio sente quando imagina ter encontrado a sua metade da laranja (já notaram como relações amorosas são um verdadeiro fertilizante para analogias bregas e clichês monumentais?) e, tomados por aquelas certezas que duram duas semanas, os casais vão armando suas próprias armadilhas.

No início, querendo agradar, você jura pra ela que adora axé, sem imaginar que se aquele namoro durar você será obrigado a ouvir aqueles malditos CDs da Ivete que ela tem e ainda fazer os "êêêês" e "ôôôôs-sai--do-chão!" com cara de quem está prestes a vestir um abadá e sair pulando por aí.

Outra coisa é mentir sobre hábitos que já estão tão arraigados em você, e que provavelmente te fariam surrar sua própria mãe para mantê-los. Deixando isso pra lá, você mente pra nova namorada dizendo que adora correr no calçadão toda manhã bem cedinho ou fala pro seu namorado que é "uma mulher diferente" porque "aaaaama futebol".

Bom, a história termina assim: um sujeito com tênis, bermuda e olheiras no meio do sol matinal se perguntando "para onde ou do que todas essas pessoas correm?" e uma mocinha em pleno Maracanã, quarta-feira à noite, com chuva, vendo um emocionante Fluminense x Ceará. Agora me digam: quantos anos você consegue sustentar uma mentira assim?

Certos impulsos de início de namoro devem ser contidos, ainda que pareça quase impossível, ainda que você precise pedir a alguém que te acorrente em casa. Apresentar para a família e para os amigos é um desses arroubos perigosíssimos. Primeiro porque você não terá com quem desabafar nada em um eventual problema, já que um bocado de gente vai te dizer "ahhh eu também sou amiga dela, não quero me meter" e, num eventual rompimento, vai ter que ouvir aquelas perguntas e piadinhas, tipo "Ué? Cadê fulana?" ou ainda "Igual aquela você nunca mais arruma outra".

Mas a mãe é o pior. Pouca coisa é mais perigosa do que a sua mãe perdidamente apaixonada pela ex. Ela tratará a nova namorada com indiferença, vai fazer comparações e se você for reclamar ainda vai jogar na sua cara "Você sabe que eu gosto é da Fulaninha". Por isso, evite levar seu novo amor para conhecer a sua mãe muito rapidamente, seus futuros amores agradecerão.

Emprestar sua camiseta favorita com a foto do Kramer do Seinfeld também é mau negócio. Você mal conhece a moça, vai que dali a duas semanas vocês terminam, você liga pra ela perguntando pela sua blusa e ouve um "Já virou pano de chão, aquilo estava velho, puído, você está de mesquinharia isso sim". Livros, CDs, roupas e dinheiro devem ficar definitivamente fora de qualquer namoro com menos de 10 anos de duração.

No final das contas, assim como a vida dos outros sempre parece ser mais interessante simplesmente porque não é a nossa, a pessoa recém-conquistada sempre parece mais perfeita porque acabou de virar "nossa". A convivência e a rotina são fatais, e é aí que a coisa pega e as pessoas iniciam uma troca de namorados digna dos ex-maridos da Elizabeth Taylor.

Só que em gente que escolhe tão mal seus relacionamentos, que quando vem me dizer - de novo - que "a fila andou", eu imagino logo que seja uma dessas filas do SUS.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Cores e Consumo

Um dos grandes atrativos de qualquer produto que está em uma prateleira de supermercado ou farmácia é sua aparência. Faculdades se dedicam a formar profissionais que passarão a vida criando embalagens, combinações de cores, rótulos chamativos, identidades visuais que servirão primordialmente para fazer algum produto sobressair à concorrência e merecer ir parar na cesta de compras.

Comigo essa coisa do visual sempre influenciou muito. Quando adolescente confesso que chegava a desejar alguns discos só por causa da capa. Sabe como é, nem toda loja tinha paciência de permitir que seus clientes - ainda mais adolescentes agitados - mexessem nos delicados discos de vinil para ouvi-los, então uma capa interessante seria apenas uma capa interessante até que eu pudesse comprar o disco e ouvi-lo em casa. O problema é que às vezes o designer da capa era mais talentoso do que o músico, e me obrigava a correr para a loja e tentar a troca ou então vender aquilo por um décimo do preço em um sebo qualquer.

Mas minha relação com embalagens vem de bem antes da adolescência. Lembro que, ainda criança, ficava frustradíssimo quando ia às compras com a minha avó e ela insistia em levar para casa o creme dental Phillips, com aquela embalagem branca e o creme dental em si também branco, ou seja, mais sem graça impossível. Eu lá, doido pra levar uma "menta americana" ou um daqueles em gel fluorescente e nada.

Até que um dia consegui convencê-la a comprar um colorido. Branco e vermelho, listrado. O sabor era uma coisa abominável, mas passei semanas escovando os dentes a cores.

Mas tirando capas de discos que enganam e cremes dentais coloridos com sabor de purgante, acho que todo consumidor deveria ter o direito de escolher a cor do que vai consumir. Digo isso porque sempre que vou em alguma farmácia e vejo que o shampoo para o meu tipo de cabelo é azul, penso que os que são para outros tipos de cabelos geralmente tem cores muito mais legais.

É amarelo, vermelho, roxo, um verde geleca, tem até de duas cores. Fico no maior dilema, comprando coisas das quais não preciso porque gostei da sua cor ou do seu cheiro. Acabo dando de presente pra alguém depois, porque meu cabelo fica oleoso demais, seco demais, estranho demais. É o shampoo azul cobrando o preço da minha infidelidade.

Mas e se o cara estiver com humor para lavar sua cabeça com magenta? Eles deveriam disponibilizar cores variadas para os mesmos tipos de cabelos também.

Outras coisas não são tão complicadas como biscoitos, chocolates, iogurtes, caixas de leite. O problema é que precisam urgentemente inventar legumes e verduras com visual tão apetitoso quanto uma lata de sorvete alpino.

Cremes dentais então são uma verdadeira festa, ainda mais porque não existem "dentes oleosos" ou "dentes de raiz oleosa e ponta seca", então a escolha basicamente restringe-se ao sabor e à aparência dos produtos.

Só não fica muito bem um marmanjo passando pelo caixa com um estoque de Tandy, mas sempre tem a velha desculpa: "as crianças lá em casa adoram...".

terça-feira, 27 de julho de 2010

O véu do preconceito

O termo acima pode querer dizer tudo - desde um trocadilho pra lá de batido até uma forma de traduzir o drama das mulheres no assim chamado "mundo muçulmano" - mas também pode significar a forma como essa palavra foi estuprada pelo uso com o decorrer do tempo.

Poucas palavras foram tão violadas pelo uso indiscriminado quanto "preconceito", repetido e urrado como tábua de salvação para "ganhar" qualquer discussão, o que acabou encobrindo, esvaziando seu significado. E como todo mundo sente verdadeiro pavor de ser "preconceituoso", admite-se que tudo é tolerável, botamos tudo na conta da "diversidade".

Outro dia estava conversando com uma boa amiga sobre os direitos dos gays e disse a ela que não deveria haver nenhum direito "dos gays". Mas antes de me xingar de homofóbico, espere a explicação: "ser gay" pra mim não define uma pessoa, assim como "ser negro", "ser vascaíno", "ser casado" ou até mesmo "ser branco". As pessoas são filhos, pais, irmãos, tios, primos, amigos, profissionais, vizinhos, adoradores de sorvete de menta, cidadãos, enfim, pessoas, indivíduos com diversas características e, dentre elas, sua sexualidade. Portanto, não se justifica criar leis que protejam um segmento específico de cidadãos.

Somos tribais. O estranho, como o próprio nome já diz, nos causa estranhamento e isso é normal, é do ser humano. A tal globalização aliada ao ataque de gafanhotos do "politicamente correto" diz que as pessoas não podem torcer o nariz para nada. Só que cada um deve ter direito à sua cota de estranhamento - que alguns dirão "preconceito" - geralmente associada à sua formação cultural.

O que é normal nos grotões da África, não é em Nova Iorque. O que é inaceitável no interior do México, será perfeitamente comum na Suécia e o que é algo corriqueiro na Itália, será intolerável no Japão.

Assim somos nós, ainda que insistam que devamos lutar contra isso. Uma coisa, porém é você se espantar com o que é diferente, outra coisa é você usar esse espanto para agir à margem da lei.

Sair às ruas e espancar pessoas é crime sejam elas gays ou heteros. Injuriar alguém é errado independente do xingamento ser "crioulo!", "gay!" ou mesmo "branquelo nojento!". Agir com civilidade, dentro dos limites da lei, não é algo "opcional", é mandatório por mais redundante que isso seja, e as punições estão aí para isso.

E aí chego no ponto onde queria, que é a tal "Lei do Véu". A lei, aprovada pelo parlamento francês, proíbe o uso do véu islâmico integral em qualquer espaço público.

Óbvio que a turma da "tolerância" correu para condenar a medida, dizendo que era "perseguição religiosa" e "um absurdo", entre outros termos. Mas afinal, será mesmo? Muçulmanos não são muito conhecidos pela sua tolerância religiosa ou civil, sendo assim, não é difícil imaginar daqui a algum tempo "bairros" ou redutos muçulmanos em Paris onde mulheres, mesmo ocidentais, sejam hostilizadas por não cobrir a cabeça. A lei previne isso e também garante o direito à cultura ocidental do país.

E o que os escandalizados com a "Lei do Véu" talvez não saibam - ou ignorem - é que em países como a Arábia Saudita, por exemplo, o uso do véu é obrigatório mesmo para mulheres ocidentais, que estão sujeitas a uma surra de chicote no meio da rua caso não obedeçam à regra. No mesmo país - e em outros como o Irã - o simples ato de portar uma Bíblia é considerado crime passível de penas severíssimas.

Onde está a tolerância? Argumentarão que isso ocorre porque tais países são ditaduras, mas isso apenas confere uma legitimidade ainda maior à lei francesa, que foi fruto de votação em um parlamento democraticamente eleito, e não da vontade de um rei, imã ou aiatolá.

E cabe também lembrar que a tal "tolerância" é uma via de mão dupla (ou deveria ser). Os direitos individuais devem ser de todos e não dos negros e suas cotas, dos gays e suas passeatas, das pessoas do oriente que precisam emigrar para dar seguimento às suas vidas e seus véus.

Os brancos, heteros, cristãos e ocidentais também tem esse direito, inclusive o direito de proteger e preservar sua herança cultural.

Caso contrário, os "discriminados" serão eles.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Noites sem fim

O som do britpop cheirava a álcool. Sim, sons podem ter cheiros, experimente ouvir Bob Marley. O Empório lotado, embaixo e em cima, a calçada da rua tomada, vendedores de cerveja, whisky falsificado e pó vagabundo na esquina. Balas - as doces e as que fazem voar, amar, imaginar - disseram que estava rolando uma rave no Posto Nove, ou em frente à rua Maria Quitéria mesmo, vai saber. Elas mudam de lugar quase tão rápido quanto os verões.

Mas a gente já sabe que Ipanema é 90% para se olhar, 9% para se entediar e 1% para acontecer. Nada que mereça uma noite de sábado inteira. Apenas o necessário para batizar as retinas com as visões de suas meninas e calibrar a alma com quantas doses de bebida suportarmos. A escolha é livre. Destilado, fermentado, tudo misturado...

Pegamos o carro e...Lapa! Com seus personagens e sua gente cinza. Na época ainda não era ponto de encontro da cidade inteira, era um cantão fedorento, cheio de casarões que pareciam prestes a desabar aonde freqüentávamos festinha esfumaçadas e cheirando a mofo, gente esquisita - incluindo nós - uma feira de modas que depois virou hypeida como diz uma amiga minha e só. Mas era gostoso ficar ali bebendo e conversando coisas como o fato daquele momento exato, quando pensamos nele, já ter passado. Para uns, papo de bêbado, para nós, nossos papos.

Um sai para fumar um prensado, outro disfarça e vai pro banheiro acariciar o nariz, eu acendo meu cigarro de bali (resquício da playboyzice da adolescência), a música (rockzinho gostoso, alguma coisa de D´n´B no fim de noite também) e realmente, o tempo escorre e quando vejo - surpresa! - tenho 30 anos.

Mas isso aqui não é pra falar de "balzaquices", chill out! De preferência na casa de alguém que estude comunicação, more sozinho no Catete com um amigo filósofo (e gay) e a gente possa beber, fumar, beijar e às vezes até fuder, todo mundo no mesmo ambiente e sem neuroses, afinal, todos ali já viram alguém pelado.

Nunca vi homem com homem nessas ocasiões (as que eu estava presente), mas disseram que já houve. Mulher com mulher vi três vezes e em 2 delas não resisti, perdi a linha e me enfiei no meio (talvez se não tivesse tomado bala não faria isso, mas não tenho como saber).

Quem viveu as noites pós anos 80(e talvez os que viveram as noites pré e durante também), sabe não ser possível passear por elas sem ir parar na casa de uma desconhecida ou com alguma desconhecida em sua casa. Às vezes a doideira é tanta que a gente não conhecia nem a própria casa. Mas valeu, foram amores de qualquer jeito. Amores só para fuder é claro.

Teve até uma boate em frente à praia de Copacabana aonde íamos com nossas roupas esquisitas, as meninas com maquiagem carregada e ficávamos ali na fila, esperando pelo som eletrônico lá de dentro e misturados às putas da avenida Atlântica. Vamos ser sinceros, né? Um monte de putos e putas misturados na calçada.

Legal era sair de manhã, ao final noites mal dormidas e bem dançadas, boca seca de Benzitrat – ou seria Benflogin? - pele quente, elas de maquiagem borrada, andando pela rua junto com os atletas da manhã. Mal sabiam que jogamos uma olimpíada a noite toda, com pentatlo, decatlo e até centatlo, se existir.

O som da batida parece o som do coração da pessoa que você está beijando na boca naquele momento, muito gostoso. Vodka faz a gente sentir o sangue correndo nas veias e o absinto deixa doidão a partir do primeiro gole. Tudo alucina e também dificulta a memória.

Será que aconteceu? A continuar...(sempre continua, afinal).

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Só dependia de um "oi"

Você entra no metrô, no ônibus ou - se tiver sorte de estar viajando de férias - no avião, e a primeira pessoa que vê é ela. Linda. Cabelos castanhos, branca, rosto pequeno, tatuagem de borboleta no ombro direito, uma fitinha do Bonfim azul no pulso, óculos escuros, blusa branca, bolsa colorida, enfim, não tem um detalhe que você tenha perdido naqueles 2 segundos de primeira vista.

Ela olha pra você - e você fica sem saber se é porque tem algo preso nos seus dentes ou se é um olhar correspondido - e você quase sorri. Quase, porque sabe como é, tem certos momentos que são tão perfeitos que até um sorriso mal encaixado consegue estragar.

A bela passa a mão pelos cabelos e você sente vontade de coçar as sobrancelhas, você consulta as horas no seu relógio de pulso e ela faz o mesmo no seu iPhone. Segundo os experts em gestual, isso significa que vocês estão em sintonia. Mas que diabos seria isso? Vocês não são dois rádios de pilha.

Enquanto seu olhar percorre o pedaço de pele entre o ombo e as ruguinhas do cotovelo dela, você imagina os beijos que poderão dar, os amassos, o sexo, imagina as pequenas manias, a escova de cabelos do seu banheiro cheia dos fios compridos dos cabelos dela, as duas escovas de dente lado a lado - qual será a cor que ela escolherá? Rosa? Laranja? - imagina as viagens juntos - ela arrumada no aeroporto, malas prontas, expectativas - as brigas, as reconciliações. O makeup sex, que sempre é maravilhoso.

E tudo isso só depende de duas letras: "oi". Na verdade depende de quatro: "oi" e "oi", afinal a recíproca é indispensável para planos a dois serem bem sucedidos.

Quem sabe ela também não está ali pensando nas idas ao cinema sábado à noite, nas tardes de verão na praia, nas águas de côco, nos sorvetes trocados, nas guerras de travesseiros, nas ceninhas de ciúme. Uma faísca de história a ser vivida bem ali, pairando sobre alguns segundos, quase parados no tempo, só esperando, esperando, esperando.

Mas pode ser que ela tenha um namorado totalmente superlativo. Bonitaço, bonzaço na cama, corpaço e, lutadorzaço de jiu-jitsu. Melhor deixar pra lá. Ou será que não? É geralmente nesse momento você inveja a coragem dos bêbados (ou dos caras de pau).

E o roteiro do que jamais será fica ali passando na sua cabeça, e no momento em que você pode quase sentir o gosto dos beijos ainda não dados, o perfume dos cabelos ainda não acariciados, segurados com força, colados no suor de uma transa, os lençóis desarrumados de manhã, o café na cama, o próprio gosto doce-amargo da rotina, quando tudo é quase real, o avião já está pousando, o ônibus chegou ao ponto, o metrô abre as portas.

E lá se vai ela, levando aquela boca beijável embora, aquela história vivível, aqueles poucos minutos de fantasia divididas sem saber.

Só dependia de um "oi", mas agora já foi.

Balzac tinha razão

Estava totalmente afundado no trabalho pesado de um dia comum (leia-se: navegando na internet para matar o tempo e esperar o relógio chegar perto das 18:00) quando me deparei com uma reportagem da Veja - pois é, sou reacionário, burguês, insensível e leio a Veja - que dizia que o auge da beleza feminina acontece em torno dos 31 anos.

Sei que a coisa é quase científica, mas me pareceu uma redundância como dizer que "chocolate é bom" ou que "90% dos ídolos adolescentes estão fadados a virar ex-viciados gordos" ou ainda que "99,9% das estatísticas citadas em textos na internet são fajutas".

Sem desmerecer as demais faixas etárias - já que admiro as mulheres desde os 18, idade que não "dá cadeia", até a fronteira do complexo de Édipo - é claro que a vizinhança dos 30 e poucos anos é a melhor fase da vida da mulher. Não é por acaso que as balzaquianas fazem sucesso entre homens de todas as idades.

E não diria isso só pela beleza, que nessa idade estaciona entre o viço e a maturidade, tomando emprestado o melhor de cada um, mas no seu modo de ser, na sua forma de pensar, no seu trato com o mundo e as pessoas que a rodeiam. Ela já sabe o que quer, não tem nojinhos na cama e os poucos tabus que ainda traz consigo ela geralmente já está disposta a atirar na lixeira, junto com os bagaços que cultuava na adolescência.

Se ela ainda não é mãe, pelo menos terá algumas amigas que o são e isso dará a ela a noção exata da preciosidade do tempo, das experiências, sensações, da urgência de se viver. Essa urgência no entanto não se confundirá com ansiedade, imaturidade, já que ela terá vivência suficiente para saber que o sol vai nascer amanhã e que oportunidades - ao contrário do que prega a auto-ajuda - vão, mas voltam.

Cansei de conhecer meninas de 20 e poucos depois que eu passei dos 30 e era algo como:

- E aí? Tudo legal?

- Nossa! Foi diferente. Meu namorado de 18 anos nunca conseguia passar dos 45 segundos, não sabia que sexo podia durar 5 minutos...

- Pode durar bem mais, você trocar algumas posições e não mascar chiclete durante ajuda muito.

- Pô, legal, mas e aí? Vamos sair sexta? Tem uma micareta-trance irada num sítio lá em Ribanceira, vai durar três dias direto...

- Deixa eu pensar: barulho, mosquitos, acampar e cagar no mato. Nem de graça...

- Você tá ficando velho...

E eu pensando: "Não, você é que ainda tá muito nova".

Com uma de 30 não tem isso. Ela pode não ter frescuras - o que é excelente - mas já tem o refinamento necessário para não planejar uma data especial em um luau com 50 amigos de faculdade, uma dúzia de maçãs, meia melancia e 2 garrafas de vinho de 1 real.

Aos 30, as espinhas e os cortes de cabelo alternativos - leia-se escrotos - já foram embora e a gravidade ainda é apenas uma lei da física. Como bem diz a pesquisa, elas estão mais confiantes, normalmente já ganham seu próprio dinheiro, dominam seu estilo, e ainda que não tenham aquela experiência cansada das mulheres mais velhas, que parecem que "já viram de tudo", elas sabem pelo menos o que querem e, principalmente, o que não querem.

Sabem que inteligência é uma maravilha, mas que ninguém vai pra cama com a tese de mestrado do outro, por isso beleza é fundamental. Que projetos em comum ajudam bastante, que o ideal do amor infinito é apenas isso, um ideal, e estão dispostas a construir o seu amor diariamente.

E a melhor parte: elas tem muito a oferecer, a ensinar e são tão generosas que até permitem que você as ensine um truque ou outro.

Só não podemos esquecer de uma coisa: mesmo em sua melhor fase, ainda assim elas são mulheres, estes adoráveis seres que de uma hora para outra podem se comportar de um jeito totalmente inesperado e confundir nossa cabeça, já que está para nascer quem vai entender pelo menos 50% da cabeça de uma mulher.

E por falar em estatística, uma pelo menos não é furada: Honoré de Balzac estava 100% certo.

PS: A bela balzaquiana que ilustra este post é a inglesa Danielle Lineker.
 
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