terça-feira, 31 de agosto de 2010

Lula e Chávez: dois lados do mesmo tostão furado

Chávez: "Golf é esporte de burguês gordo


Lula: "Tênis é esporte da burguesia, porra"


Como podem notar, tanto no quesito idiotice quanto na truculência e falta de educação, ambos os tiranetes são iguais. O que difere? É que um vive num país com instituições democráticas mais frágeis como é a Venezuela, e conseguiu "tomar conta" mais rápido.

O outro apenas cuida - diariamente - de enfraquecer estas mesmas instituições no Brasil, talvez já na intenção de aprontar o mesmo por aqui. O "pensamento" - se é que podemos chamar qualquer coisa que sai dessas duas cabeças de pensamento - é bem parecido. O "nós" contra "eles", o estado forte e aparelhado, o controle da mídia, o roubo de fatos históricos para transformá-los em mérito pessoal do "grande líder"
.
Lá, Chávez já roubou até mesmo Simon Bolívar. Aqui, Lula ainda não se disse a reencarnação de Tiradentes, talvez por medo de, quem sabe, ter o mesmo destino, ou talvez porque ache muito pouco. Afinal porque ser apenas um mártir se pode ser um deus?

O que os petralhas não entendem - talvez por falta de inteligência, talvez por mau-caratismo ou talvez porque estejam ocupados demais tentando dizimar qualquer coisa que se oponha a eles - é que os seus opositores não querem que eles se calem ou sejam varridos do mapa, querem é não ter que se calar e não sucumbir diante dessa nova modalidade de ditadura do Século XXI, que é a turba emburrecida, abrindo mão de ser indivíduo para aderir à manada, esmagando qualquer coisa que se coloque à sua frente em nome da "maioria". Não existe democracia plebiscitária.

Isso não é democracia, e está longe de ser liberdade.


Cabe apenas perguntar à Lula se o seu filho, que enriqueceu depois que ele entrou para o governo, é um burguês ou não. Perguntar o que seria afinal essa elite companheira, essa burguesia do capital alheio surgida no mandarinato petista. Esses empreenderores que curiosamente só ficam ricos nas diretorias de algum sindicato, partido ou depois que chegam ao governo.

Porque o conceito de "elite" e "burguesia" dessa gente é bastante deturpado, ainda mais quando se tem notícia de que um dos "grandes" ídolos de todos eles, o assassino chamado Che Guevara, adorava jogar um golfzinho e de que todo grão-petralha que se preze adora um vinho ou whisky importado.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Oi, você sempre navega por aqui?

O senso comum - ou pelo menos muito comum - é de que a internet é o mundo colorido da mentira. Atrás de um computador qualquer um pode dizer qualquer coisa que existirá um paspalho em algum lugar que acreditará senão em tudo, em pelo menos em alguma parte da sua história.

Você pode dizer que é um delegado especializado em prender fãs de bandas adolescentes ou então que é um espião búlgaro aposentado. Você pode dizer um monte de bobagens à vontade e ainda assim arrumará um séquito de fãs e admiradores, independente do teor das bobagens que diga, e principalmente, você arruma alguém, a tal alma gêmea, em questão de um dia.

Chats e sites de relacionamento são verdadeiros balcões de pessoas atrás de outras pessoas. Você faz seu cadastro, posta ali as três melhores fotos que já tirou na vida - aquelas fotos que depois nem parece que era você ou que te fazem pensar "porra, porque meus pais não me fizeram assim de todos os ângulos?" - mente um pouquinho sobre suas intenções, faz uma dieta virtual que retira uns 10 quilos do seu peso verdadeiro, tenta ser um pouco engraçadinho sem no entanto parecer palhaço e pronto, começa assim a sua busca.

Sempre digo que na internet é bem mais fácil chegar em alguém do que na vida real. Primeiro porque a falta de contato olho no olho impede que um possível fora seja algo traumático. É bem mais fácil desligar o computador e fingir que nada daquilo aconteceu ou então dizer para si mesmo "ahh, deve ser uma gorda com cabelo no suvaco que usou a foto da prima gostosa" do que efetivamente levar um fora de uma gata num bar ou boate.


Depois porque você tem a chance de se mostrar para a pessoa (colocando uma lupa sobre suas qualidades e maquiando seus defeitos) antes dela te ver e ouvir em 3D e estéreo, o que muitas vezes complica tudo. Porque sempre tem aquele seu problema de ficar vesgo se olhar nos olhos da outra pessoa por mais de 2 segundos, o redemoinho na sua testa que faz parecer com que você tenha uma cicatriz no couro cabeludo ou então a sua velha mania de fazer o som de um porco quando ri.

Tudo isso sai da equação se os primeiros encontros que você tiver com o futuro amor da sua vida forem apenas através de bites e bytes. Com um pouco de paciência e uma dose de bom senso, dá pra você combinar que todo aquele "amor eterno, casa, cachorros e filhos" (não necessariamente nesta ordem) ficarão condicionados ao primeiro contato, ao já mundialmente famoso conceito do "rolar química".

Isso na verdade é um código social para dizer o seguinte: tudo bem, adorei conhecer você, mas quero te encontrar primeiro para ter certeza de que você não usou a foto de algum ator russo de filmes B e não tem nenhum típo de transtorno de masturbação compulsiva que te faça agir como um mico frenético.

E se tudo correr bem nesse primeiro encontro, ou seja, se a pessoa tiver todos os dentes na boca, uma margem de erro de uns 5 quilos apenas entre o que declarou nas conversas pelo msn e a realidade, desodorante em dia e não emitir sons enquanto mastiga, tudo está pronto para que você inicie sua busca pelas mentiras mais sutis, tipo ele não ser um ciumento possessivo que apenas diz que é "intenso" e ela não ser uma ex-noiva obcecada, dessas que marcam a data na Igreja escondida do namorado depois da terceira ida ao cinema.

Mas nesse ponto o relacionamento iniciado na internet chega na mesma encruzilhada que qualquer outro, que é você descobrir quem aquela pessoa é na verdade. Nessa altura tanto faz se você conheceu seu amado usando uma foto de 20 anos atrás, ou numa festa durante um porre que o fez parecer 20 anos mais novo, afinal, todo mudo mente e a gente jamais conhece o outro por completo.

A única coisa que até hoje eu não consegui entender muito bem como é que um quarentão acima do peso, casado e com tantos fios de cabelo na cabeça quanto o Marcelo Tas consegue se virar para pegar uma gatinha de 22 anos depois de contar para ela que ele é moreno, forte, olhos verdes e tem um peitoral de remador.

E olha que isso é mais comum do que você imagina.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Fecha as portas, Palmeiras!

Tenho um amigo que diz que o Palmeiras deveria fechar. Ele acha que, nos últimos 10 anos principalmente, o clube manchou tanto a sua história que seria mais negócio acabar com o futebol e virar um clube de bocha junto com um museu daquilo que já foi um dia.

Eu que sempre achei essa idéia "meio" radical começo a concordar com ele. Primeiro porque o clube parece mesmo não ter solução. Senão porque será que os técnicos mais renomados do país como Leão, Luxemburgo, Muricy e Felipão passaram por ali nessa última década e, à exceção de um Paulistinha do Luxemburgo, o time não conseguiu nada além de derrotas, humilhações e vexames? O final melancólico, digno de um clubinho de interior, no Brasileirão 2009, entregando um título que já estava na mão é a maior prova disso.

E a despeito do elenco horrível, com jogadores como Max - o atacante com a impressionante marca de 1 gol a favor e um contra em mais de uma dezena de jogos - o problema também não parece ser apenas esse, já que nomes como Vágner Love, Keirrison, Diego Souza, Gamarra, entre outros passaram pelo clube nestes últimos anos.

O problema, como aponta o meu amigo, é o Palmeiras mesmo. O Palmeiras não está em má fase, o Palmeiras é a má fase.

Tanto que sua torcida se acostumou a perder, a ser perdedora. Passou a achar normal ver humilhações como essa mais recente, com o time levando uma surra do poderoso Atlético Goianiense em pleno dia do seu aniversário.


A torcida palmeirense - com seus "tsunamis" ridículos, já que sou do tempo em que tsunami de camisas acontecia sempre que qualquer time vencia um título - com seus ídolos de pés de barro como o goleiro Marcos - que entregou o Mundial do time com uma borboletada e que não joga em alto nível há pelo menos uns 8 anos - e seu conformismo que nada cobra, nada reclama, tudo aceita e aplaude também é responsável pela péssima fase do clube, mas não a única culpada.

O maior culpado disso é o próprio Palmeiras, com suas eternas promessas, suas longas negociações em que dias se tornam semanas e semanas se tornam meses, seus obscuros jogadores que a despeito de não produzirem nada em campo tem contratos renovados por anos, seus negócios mirabolantes como vender o Valdívia e comprar de volta pelo dobro do preço, seus diretores apatetados que desmentem uns aos outros através da imprensa, seu presidente que aparece num vídeo dizendo que vai "matá us bambi", fala bobagens na TV e, segundo informam alguns veículos de comunicação, multiplicou as dívidas sem resultado prático algum.

Essa tal "Arena Palestra", que sempre precisa de "mais uma licença", é o retrato exato do que o Palmeiras virou: um site na internet, imagens do que já foi e do que poderia ser, poemas, textos emocionantes e um verdadeiro monte de entulho se arrastando dentro de campo. Uma promessa que não acontece, uma rua cheia de quebra-molas, uma espera sem fim, uma obra que quando finalmente fica pronta, está cheia de remendos por fazer.

E vendo a política do clube a perspectiva é ainda pior, já que os supostos candidatos na próxima eleição são uns piores do que os outros.

Talvez meu amigo esteja mesmo certo, se for pra não fazer nada, se for pra continuar sendo essa eterna promessa, esse eterno "campeão do ano que vem", talvez seja melhor fechar as portas e viver só de passado, já que o presente só parece servir para manchá-lo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Porquê José Serra

Ainda lembro a eleição de 2002. O Brasil clamava por mudança, mas não uma mudança qualquer, desgovernada, e sim uma mudança que levasse à toda população os benefícios que a estabilidade econômica proporcionou à economia.

Naquele ano, o então candidato oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva - ainda longe de ser alçado à atual condição de semi-deus que faz verter das torneiras mel e leite - inspirava e amedrontava ao mesmo tempo. A ânsia por "mudança" vinha de mãos dadas com o medo da "radicalização". O seu partido apresentou a "Carta ao Povo Brasileiro", na qual acalmava temores e assegurava que as bases da economia do país seriam mantidas e o marqueteiro Duda Mendonça criou o personagem "Lulinha Paz e Amor", que transformou o raivoso metalúrgico do ABC em candidato imbatível.

Lula venceu e a utopia deu lugar à realidade da tarefa de governar um país, veio o mensalão, vieram os aloprados, ocorreu todo o aparelhamento da máquina pública, as alianças com Renan Calheiros, José Sarney e Fernando Collor, a ideologização do Ministério das Relações Exteriores, enfim, tudo o que levanta críticas dos não batizados no petismo.

Mas houve uma coisa que, a despeito da vontade dos radicais petistas, ficou inalterada: a política econômica que tirou o Brasil de taxas de inflação zimbabuanas.

O governo Fernando Henrique realizou - dentre tantas - a privatização das empresas de telefonia e assim uma linha telefônica deixou de ser jóia disputada a tapas - e deixada como herança - para ser um direito de todo cidadão. Bancos estaduais - antros de gastança - foram vendidos, a Lei de Responsabilidade Fiscal foi aprovada e as bases para um desenvolvimento sustentável foram deixadas.

Lula herdou um país pior do que aquele que vai deixar ao seu sucessor, assim como Fernando Henrique herdou um país pior das mãos do presidente Itamar. Simplesmente porque o Brasil atual, essa construção de muitas mãos que remete a Tancredo Neves - que arquitetou a democracia que vivemos hoje junto com outros tantos e que o petismo combateu por não ser "um dos seus" - não é obra de uma pessoa só, como a mentirosa propaganda lulo-petista quer fazer parecer.


E se houve algo em que Lula acertou, foi exatamente em não subverter esta obra tão trabalhosa, mas ao invés disso aprofundar a experiência do Plano Real e fazer aquilo que era a vontade do eleitor em 2002: distribuir renda, tirar pessoas da pobreza e criar bases para uma nova sociedade brasileira.

Ele realizou a mudança com a direção necessária e foi sábio ao contrariar tudo o que a cartilha petista sempre pregou, ou seja, calote no FMI, reversão das privatizações, flexibilização dos gastos públicos e todas aquelas receitas esquerdóides que se mostram trágicas por onde quer que sejam implantadas, e está aí a Venezuela para não me deixar mentir.

Hoje o Brasil pede continuidade. O Brasil não quer que os avanços resultados do trabalho árduo sejam postos a perder e é por isso que o Brasil merece que José Serra seja eleito seu presidente.

O que as pessoas precisam ter em mente é que o radicalismo petista não morreu. É que o partido é incorrigível, nunca achando erro algum em suas ações, por mais nefastas que sejam. A presença de personas como José Dirceu e Antônio Palocci na campanha da candidata de Lula, essa obscura criatura eleitoral chamada Dilma Rousseff, são a maior prova disto.

Caso este atentado, esta ameaça à República seja colocada na cadeira presidencial, o que acontecerá é que Lula - que por ser muito maior do que o PT consegue domar seu apetite pantraguélico - voltará para casa no dia 1º de Janeiro e o que sobrará no Planalto será esta senhora despreparada, claudicante e inepta, junto com todos aqueles mensaleiros e radicais que não foram afastados do partido.

Toda essa gente que acha bonito coisas como controle da impresa, comitês da verdade, aparelhamento do poder público, pelegagem, invasões do MST, amizade com as FARC, simpatia a regimes autoritários como os do Irã, da Venezuela, do Sudão, entre outros, estará ali, ao lado de uma personagem inventada por Lula, mas sem um décimo da força de Lula, a ser dominada pelo Partido que somente Lula consegue domesticar.

De outro lado desta história temos um homem que foi senador, prefeito da maior cidade do país, governador do estado mais rico da Federação e que, entre erros e acertos, tem a capacidade para dar ao país neste momento o que ele deseja, que é a continuidade do ciclo de crescimento, uma revolução na educação e na saúde e, principalmente, a manutenção da normalidade democrática.

Não existe democracia possível onde projetos de 20, 30 anos de poder estejam sendo engendrados em porões da mais reles ideologia. Não existe democracia sem oposição livre, imprensa atuante - sem receber mesada de estatais para fazer propaganda oficial disfarçada - e principalmente, sem alternância de poder.

O que só Lula era capaz de fornecer ao Brasil em 2002, que era mudança com direção, só José Serra é capaz de oferecer hoje, que é continuidade com avanços, liberdade e democracia.

Não me interessa o passado da Sra Dilma Rousseff, mesmo porque ela não tem algum que mereça destaque (a não ser negativo), não me interessa o que aconteceu no Brasil até ontem, porque é a partir de amanhã que todos teremos que viver e conviver com as decisões que tomarmos hoje.

Não espero perfeição, não espero o paraíso, mesmo porque quem é brasileiro pelo menos há mais de uma década já sabe que isso não é uma realidade para nós, mas quero um governo que entre acertos e erros, jamais tente calar aqueles que apontam seus erros, aqueles que criticam, que jamais demonize seus adversários e nunca tente infantilizar o nosso povo.

Não precisamos de "pai" e nem de "mãe" da nação, precisamos de um Presidente da República, ciente de suas obrigações e que acima de tudo, respeite os limites da democracia.

E é por isto, pelo futuro, pela democracia e pelo Brasil que conhecemos até hoje - com todas as suas imperfeições, porém livre - que desejo profundamente que José Serra seja eleito nosso 36º presidente e peço aos que me lêem - poucos, alguns ou muitos, não importa - que se juntem a mim nesta reflexão.

Sim, aquele mote de campanha é verdadeiro: o Brasil pode mais.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Seu comportamento na internet possivelmente ainda queimará seu filme

O presidente do Google advertiu recentemente que muitos jovens poderão precisar mudar seus nomes para apagar os rastros de sua vida virtual pregressa. Seria quase como ter dois CPFs, entrar para um programa de proteção à testemunhas ou ser laranja de si mesmo.

Tudo isso por conta do comportamento que algumas pessoas exibem na internet e também pela quantidade massiva de dados pessoais que elas inserem em redes sociais e sites de relacionamento. É tanta informação espalhada por aí que não é difícil imaginar que qualquer um pode achar quase qualquer pessoa, precisando para isso apenas acesso à internet e alguns pouquíssimos dados dela. O resto do trabalho é feito pelos Orkuts, Facebooks, Twitters, FourSquares da vida.

Nem estou falando de vinganças de ex-namorados colocando fotos da pessoa nua ou de mocinhas desinibidas publicando sex-tapes para entrar no próximo BBB, mas de coisas mais prosaicas como publicar fotos da família, divulgar hábitos, preferências e até mesmo a localização exata num mapa, através desses programas que parecem feitos sob medida para stalkers e serial killers como o FourSquares.


Também acho que muita gente vai querer apagar o seu comportamento virtual. Sabe como é, brigões de Orkut, trolls de Twitter, imbecilizados de toda a espécie que formam algo em torno de 90% do internauta médio - e acho que estou sendo generoso nessa porcentagem - algum dia podem precisar se livrar do seu rastro de estrume virtual, espalhado com a mesma dedicação das vaquinhas no campo.

Dizem que empresas pesquisam os candidatos às suas vagas através da internet, pra ver o que dizem e o que fazem por aí. Não sei se isso é 100% verdade, se é mito ou se é algo que até acontece mas que não é tão determinante assim, porque vou confessar: se as empresas fizerem isso à risca mesmo, acho que o desemprego bate no teto, porque vai ser difícil alguém ser contratado.

Um problema é que algumas pessoas parecem meio incorrigíveis e talvez acabem mudando de nome duas, três, dez vezes para tentar apagar tanto arquivo incinerador de filme.

Outro problema é a identidade que possivelmente escolherão, porque a quantidade de gente que adora mimetizar o comportamento de personagens de filmes e da TV talvez crie uma chuva de gente com nomes esquisitos.

Iremos num dentista chamado Gregory House, num advogado chamado Hank Moody, cortaremos cabelo com uma Meredith Grey e teremos aula de física com uns 200 Sheldons Cooper.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Niterói: uma cidade em decomposição

Sou da época em que Niterói era considerada nada mais do que um dormitório do Rio de Janeiro, uma cidade patinho feio, bem ali ao lado da "Cidade Maravilhosa", meio esquecida, desprezada.

Mas o tempo passou e ela mostrou que poderia ser um bom lugar para viver. Foi embelezada, melhorou sua infra-estrutura e finalmente foi coroada como uma das 4 melhores cidades do Brasil, isso já na década de 1990.

Suas praias e sua gente bonita contribuíram para isso, mas infelizmente a cidade chega em 2010 longe de ser o paraíso que foi vendido pela propaganda oficial.

A Niterói de hoje definitivamente não é a mesma cidade aprazível do final século passado. Além do MAC (Museu de Arte Contemporânea), belíssima e exemplar obra de Oscar Niemeyer, tambem foi erguido ali um verdadeiro mar de prédios. Em Icaraí e Santa Rosa (zona nobre da cidade) então a coisa é ainda mais assustadora.

Cada pequena casa antiga ou vila deu lugar a prédios de 50, 100 e até 200 unidades habitacionais, como muito bem mostra o vídeo filmado e editado pelo niteroiense Pedro de Luna, disponível no You Tube. Onde antes viviam duas, três, quatro famílias, agora passaram a viver centenas. Empresas do ramo imobiliário e o poder público, patrocinadores de toda esta verticalização predatória, pouco ligam para as consequências que a população enfrenta.

Ações na justiça já tentaram impedir novas construções, mas a própria prefeitura contestou-as alegando queda na arrecadação caso os espigões parem de subir e, pasmem, um cidadão que nada mais é do que membro da diretoria da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário de Niterói foi nomeado pelo prefeito para a Coordenadoria de Planejamento Urbano, o que entregou as decisões sobre onde pode construir ou quem vai fiscalizar a especulação ao próprio setor imobiliário, maior beneficiário desta prática.

E enquanto a qualidade de vida na cidade é destroçada pelo inchaço populacional, as imobiliárias comemoram.

"Niterói é vitrine imobiliária do país!", comemora o site da Patrimóvel. Só esquece de avisar aos incautos dos problemas que ocorrem por trás da tal "vitrine". E não falo aqui de desabamentos no Morro do Bumba ou do caos em que a cidade se torna em caso de uma chuva mais forte, estou falando de coisas menos emergenciais, porém não menos urgentes, como o direito de ir e vir, transportes coletivos decentes, preservação do meio ambiente.

Numa cidade que não tem nem de longe a excelência na prestação de serviços que outras grandes cidades possuem - ainda lembro da "bronca" que levei do atendente de uma pizzaria em Niterói porque tentava pedir uma pizza pelo telefone às 15:00 e, segundo ele, "aquilo não é hora de comer pizza, pizza é só depois das 17:00" - e no entanto possui engarrafamentos de níveis paulistanos.

Seja sábado, domingo, de dia, de noite, a hora que for, o trânsito em Niterói é caótico, engarrafado, insuportável, agressivo. O calor também aumentou, com a cidade figurando diversas vezes nas temperaturas máximas do Grande Rio. Os serviços pioraram, estacionar é um inferno, o asfaltamento vive com problemas, a poluição das águas é uma ameaça real.

E nada é feito. Os prédios continuam a subir e a prefeitura ainda acredita que colocando canteiros de flores, pintando faixas de pedestres e fazendo marketing conseguirá tapar o sol com a peneira. Ledo engano. Só o que tapa o sol ali é a sombra dos prédios que colocam a cidade a perder para sempre, porque não se enganem: a degradação é permanente, irreversível.

Tudo isso transforma Niterói em pura propaganda enganosa, numa cidade vendida pelos seus governantes como se ainda fosse uma das melhores do Brasil para se viver, mas que no entanto se torna cada vez mais apenas uma foto desbotada daquilo que foi brevemente um dia.

Uma mera foto em decomposição.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A dança do tamanduá brasileiro

Não sei se era do seu tempo, mas quem viu o filme "Namorada de Aluguel", clássico dos anos 80, com certeza vai se lembrar da "dança do tamanduá africano", protagonizada pelo personagem de Patrick Dempsey.

Na cena, ele tenta impressionar uma garota com uma dança que aprendeu na TV, pensando que estava assistindo uma aula de dança comum, quando na verdade estava vendo o National Geographic. O mais bizarro é que ao ver aquela estranha dança sendo feita pelo cara que está saindo com a garota mais popular da escola (ninguém sabe até então que ela foi para para isso), todo mundo no baile começa a imitá-lo, fazendo o mesmo papel ridículo sem imaginar que aquela dança era na verdade parte de um ritual da África.

Não são raras as vezes em que estou em alguma festa ou boate e me lembro disso. Mas há uns dois anos a coisa tomou proporções surreais, quando fui convidado para uma festa de "gipsy punk", isso mesmo, "punk cigano". Na época era modinha no Rio de Janeiro e fui lá conferir.

A tal fusão de estilos nem me assustou tanto, visto que depois do "samba reggae" e do "samba rock", qualquer cruzamento de "cruz credo" com "deus me livre" pra mim é normal.

Chegando na festa, o que me impressionou de cara foi a certa quantidade de caras usando bigodes ao estilo Bill Butcher (personagem de Daniel Day Lewis em "Gangues de Nova York), bigodes aliás bem parecidos com o do líder de uma das bandas cultuadas do estilo. Mas a coisa ficou mais interessante ainda.


Em uma das salas do local onde estava rolando a festa, tocava uma espécie de música folcórica do Leste Europeu, uma mistura de forró, polka e quadrilha de festa junina. E, aí sim, a coisa ficou surreal, porque a tal sala estava entupida de gente, formando rodinhas, dançando aquela ciranda da Cortina de Ferro e levantando as perninhas como se simulassem um Cancan dos Balcãs.

Nada contra, afinal, se a pessoa quiser fazer a dança do siri no meio da praça ao meio dia o problema é dela, mas me faz pensar que o brasileiro é um dos maiores "marias vai com as outras" que existem no mundo.

E nem pense em tomar essa crítica como "defesa da cultura nacional", porque não é nada disso. Sou partidário da idéia de que quanto mais batuque existe num país, menos saneamento básico está disponível. O que espanta na verdade é que se aquela dancinha estilo quadrilha de festa junina fosse efetivamente quadrilha de festa junina, pouca gente "descolada" ia achar "descolado" dançar.

Mas como é um lance trazido pela onda "gipsy punk balcânica", vale até dançar cancan-balalaika-carimbó.

Tenho pra mim que alguns gringos tem essas idéias mais ou menos assim "Já sei! Vou pegar uma dança estranha e exótica, misturar com música folclórica da minha terra, inserir umas batidas eletrônicas e uma guitarra distorcida e ir vender lá no Brasil, eles compram qualquer idéia mesmo!".
Sei que outros países também sofrem com esse problema, mas talvez seja em menor escala, e também não é problema meu. Mas o Brasil com certeza está no Top 3 desse mimetismo cultural, certeza.

Não que aqui já não exista um grande estoque de lixos como rebolation, axé e funk, mas não custa nada importar mais alguns, não é mesmo? Por isso qualquer dia não se espante se ver por aí a "dança do tamanduá brasileiro".

E pior, vai arrumar um fã-clube extenso.
 
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